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"Setor da construção civil está em crise em MT", diz Sindicato
residente do Sinduscon diz que empresas não estão perdendo negócio e consumidor está atento
Queda de aproximadamente 20% na venda de imóveis, aumento nas taxas de juros, dificuldades para obtenção de crédito e um menor número de empreendimentos lançados.
Esses são alguns dos “ingredientes” que fazem com que o setor da construção civil em Mato Grosso viva uma de suas maiores crises, segundo o presidente do Sindicato das Indústrias da Construção do Estado de Mato Grosso (Sinduscon), Julio Flávio Campos de Miranda.
Ele cita, por exemplo, que as grandes construtoras do Estado não lançaram sequer um empreendimento ao longo de 2015, apenas dando continuidade a obras iniciadas em 2013 e 2014.
“O setor está em crise. Temos lançado menos empreendimentos, construído menos e temos vendido um pouco menos também. Estamos com problemas de linhas de crédito para financiar esses apartamentos. Diante disso, poucas empresas lançaram empreendimentos do ano passado pra cá”, afirmou Miranda, em entrevista exclusiva ao MidiaNews.
O cenário, no entanto, traz reflexos positivos para o consumidor, que pode adquirir imóveis a um menor custo, quando comparado aos últimos anos. Além de afirmar que os preços dos imóveis tiveram uma queda no Estado, o presidente cita que as empresas, para não perder negócio, estão apostando nas promoções e descontos.
“Entendo que o momento do cliente comprar o imóvel é agora. Até mesmo as empresas que não faziam promoção, por exemplo, estão fazendo. As empresas que tinham um metro quadrado com preço mais alto estão tentando não perder negócio. Hoje, a maioria do mercado não está perdendo o negócio e o cliente sabe disso. Por isso, o consumidor já está fazendo a proposta mínima que ele acha que dá para comprar o imóvel”, afirmou.
Ainda durante a entrevista, Julio Miranda falou sobre as perspectivas do setor para esse ano, sobre a relação dos empresários do segmento com o governador Pedro Taques (PSDB), entre outros assuntos.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – Qual a real situação do segmento da construção civil em Mato Grosso? Nacionalmente, foi divulgada uma estatística de 500 mil postos de trabalho a menos e uma retração de 8% do PIB da construção civil. Trazendo aqui para o Estado, como está esse quadro?
Julio Flávio Campos de Miranda – Estamos com estoque de imóveis grande. Houve uma redução na faixa de 20% na venda de imóveis. Houve aumento na taxa de juros, dificuldades de crédito até para obter os imóveis. Hoje você vai à agência bancária e, além de você ter capacidade de pagamento, o banco quer que você seja cliente fidelizado dele, tenha cartão de crédito. Isso dificulta um pouco o financiamento.
Diante disso, poucas empresas lançaram empreendimentos do ano passado pra cá. Por exemplo, a maior construtora que temos em Mato Grosso é a São Benedito, que não lançou nenhum prédio em 2015. Ela está acabando os prédios que começou a construir nos anos de 2013 e 2014. Temos a Plaenge, que lançou um prédio. A Gerencial lançou um prédio. A GMS, que sempre construiu na faixa de seis empreendimentos ao mesmo tempo, não lançou nenhum empreendimento em 2015. O número da construção de empregadores no ano de 2016 vai ser muito ruim. Tivemos 10 mil demissões em Mato Grosso, mas na minha visão, na visão do sindicato, acreditamos que esse número é maior [Números atualizados do Caged, divulgados após a entrevista, apontam o fechamento de 6.742 postos de trabalho em 2015].
MidiaNews – Porque os preços dos imóveis não caem?
Julio Flávio Campos de Miranda – Na verdade, os preços dos imóveis estão caindo. Acredito que está praticamente no limite de queda. Entendo que o momento do cliente comprar o imóvel é agora. Porque as empresas que não faziam promoção, por exemplo, estão fazendo. As únicas que não faziam desconto eram a Plaenge e a São Benedito. As demais sempre trabalharam com metro quadrado mais barato. Plaenge e São Benedito estão com estoque, coisa que nunca aconteceu com a Plaenge, por exemplo. Então, as empresas que tinham um metro quadrado com preço mais alto estão tentando não perder negócio. Hoje, a maioria do mercado não está perdendo o negócio e o cliente sabe disso. Por isso, o cliente já está fazendo a proposta mínima que ele acha que dá para comprar.
MidiaNews – Em números, essa queda no preço dos imóveis chegam a que porcentagem?
Julio Flávio Campos de Miranda – Acredito que de 10% a 20%. Algumas empresas estão chegando a 20% de desconto.
MidiaNews – Dentro desse quadro, é possível dizer que o segmento da construção civil está em crise em Mato Grosso?
Julio Flávio Campos de Miranda – O setor está em crise. Temos lançado menos empreendimentos, construído menos, temos vendido um pouco menos. Estamos com problemas de linhas de crédito para financiar esses apartamentos.
A única empresa que lançou vários empreendimentos foi a MRV. Pois ela trabalha em uma linha de imóveis de R$ 100 mil a R$ 200 mil, uma linha que tem um número maior de clientes e tem uma boa linha de financiamento, que é o FGTS. O Governo Federal tem hoje no caixa, de FGTS, R$ 200 bilhões. Ele vai pegar parte desse dinheiro e investir na construção civil. Então, para baixa e média renda, estão pegando recursos o FGTS e investindo. Hoje, imóveis na faixa de R$ 100 mil a R$ 200 mil, tem linha de financiamentos e tem um número de clientes grande. Praticamente apenas uma construtora trabalha com esse segmento.
MidiaNews – Isso ocorre fora do Programa Minha Casa Minha Vida?
Julio Flávio Campos de Miranda – Não. Boa parte dos imóveis da MRV se encaixam no Minha Casa Minha Vida. Imóveis de R$ 130 mil, R$ 170 mil, que é o valor do Minha Casa Minha Vida na Baixada Cuiabana.
MidiaNews – Pela sua experiência como presidente do Sindicato, essa crise toda pode acabar onde? Qual o tamanho do “monstro”? Que perspectiva o senhor vê daqui para frente?
Julio Flávio Campos de Miranda – Vejo 2016 como um ano difícil, em que algumas empresas vão acabar não suportando essas dificuldades. Quando estávamos lá atrás no “boom” da construção, as empresas sofreram dificuldades, tivemos os custos acima da inflação, além de uma dificuldade muito grande com mão de obra, que praticamente dobrou. Além de ter dobrado, não tínhamos fidelidade, tinha trabalhador que ficava seis meses e saía, pois existia a garantia do seguro-desemprego. Existia um alto custo de admissão, demissão, multa de FGTS. Então, mesmo com aquele “boom”, não foram muitas as empresas que ganharam dinheiro. Além disso, as empresas que fizeram uma reserva de caixa, esperando uma crise dessa, foram poucas.
Hoje, a maioria das empresas que não tinham tanta reserva de caixa estão com dificuldades, pois estão vendendo menos e o cliente também não está conseguindo linha de financiamento. Os bancos, desde o começo do ano passado, começaram a fechar para construtora, não só de obra pública, como também de obra privada.
MidiaNews – Pra nós termos uma dimensão do setor, quando nós falamos desse segmento da construção civil, temos quantas empresas atuantes?
Julio Flávio Campos de Miranda – Temos uma base sindical hoje de 3 mil empresas em Mato Grosso. Nos diversos segmentos, tanto construtoras de obras públicas, como construtora de 10 a 20 casas, além das grandes construtoras.
MidiaNews – A dificuldade atingiu a todas?
Julio Flávio Campos de Miranda – A dificuldade pegou todas.
MidiaNews – Temos percebido e ouvido falar coisas a respeito da situação de muitos empresários que já estariam na lona, desanimados, inclusive, correndo atrás da possibilidade de recuperação judicial. O senhor percebe isso?
Julio Flávio Campos de Miranda – Acredito que, com certeza, terão empresas recorrendo a recuperação judicial. Não sei precisar a quantidade, porque normalmente a empresa não fala, você chega a ouvir boatos, alguns se concretizam outros não. Mas, entendo que isso vai acontecer no setor sim. Para as empresas que tiveram dificuldades, a recuperação é uma válvula de escape que a lei permite.
Acredito que muitas empresas vão quebrar. Por outro lado, outras vão crescer, se souberem aproveitar alguns nichos de mercado que vão existir. Há ainda aquelas que vão se manter, se ajustar. Por exemplo, há empresas que estão reduzindo o quadro de funcionários. Ao invés de estar com dez prédios ao mesmo tempo, está fazendo três ou quatro.
MidiaNews – Nesse aspecto da recuperação judicial, tivemos o caso da Três Irmãos. Isso ocorreu em função da crise ou foi uma situação isolada da parte deles?
Julio Flávio Campos de Miranda – Acontece que as margens da construção civil e as margens da maioria do segmento empresarial brasileiro são muito apertadas. Então, a empresa que não tiver uma boa gestão, que pagar juros muito alto, seja para factorins, para bancos, ela vai começar a trabalhar om dificuldades.
No caso da Três Irmãos, eu acho que além das margens apertadas, acho que também havia um pouco de problema de gestão ou de fluxo de caixa. Além disso, houve o atraso nos pagamentos à época do Governo Silval Barbosa, por exemplo, atraso esse que era recorrente, bem como o atraso por parte dos pagamentos do Governo Federal. Esses atrasos acabaram fazendo com que a empresa – que já vinha com um pouco de dificuldade – acabasse tendo que entrar em recuperação.
A Três Irmãos era uma empresa que entrava com desconto acima do normal. Como eu disse, as margens hoje são muito apertadas. Se a empresa entra dando 10%, 20% de desconto, ela não consegue executar a obra. Paralelo a isso, a empresa pega muita obra e não consegue gerir.
MidiaNews – Foi assim no caso da obras da Copa? Ocorreu muito isso?
Julio Flávio Campos de Miranda – Sim, houve dificuldades de pagamentos. Muitas empresas, inclusive, ainda têm valores a receber. A Engeglobal, por exemplo, é uma que tem dinheiro a receber do Governo, da Infraero...
Algumas empresas da Arena, por exemplo, têm valores a receber. No final do Governo Silval, ele pagou um determinado valor a Mendes Júnior que, por sua vez, pagou um pouco às empresas. Mas, por exemplo, Silval pagou R$ 10 milhões, mas a Mendes Júnior devia R$ 30 milhões. Aí ele foi pagando uma ou outra empresa.
MidiaNews – O senhor citou que o Governo Silval atrasava muito os pagamentos. Como que está essa questão agora no Governo Pedro Taques?
Julio Flávio Campos de Miranda – Tivemos no começo do ano um atraso grande. Aqueles 100 dias de suspensão de pagamentos, que acabou virando 120, 150. Depois começou a regularizar. Parece que obras já na gestão do governador Pedro Taques, os pagamentos tem atrasado um pouco menos, mas, por exemplo, a Secretaria de Educação teve atrasos de pagamentos a construtoras no final de 2015. Várias empresas acabaram não recebendo pagamentos já relacionados à gestão Pedro Taques. Até conversei com o secretário Gustavo Oliveira [Gabinte de Projetos Estratégicos]. Ele disse que, provavelmente, eles soltaram um número maior de obras do que tinham no orçamento.
MidiaNews – Nos bastidores, há comentários de empresários, políticos, dando cona de que, no Governo, as coisas ainda estão muito travadas, “engessadas”. Vocês percebem isso?
Julio Flávio Campos de Miranda – Por exemplo, a Secretaria de Infraestrutura, do Marcelo Duarte, que foi uma das que mais produziu, o próprio MidiaNews divulgou, nesta semana, que o Governo desembolsou mais de R$ 640 milhões a empreiteiras. Mas, a maioria desses desembolsos são de obras licitadas na gestão anterior, que foram executadas, boa parte, em 2015. Mas, as informações que temos é que a parte licitações neste Governo praticamente não andou, na maioria das secretarias.
Acho que está havendo um pouco de lentidão, de burocracia ou de tudo. Um excesso de zelo. Pelas informações que a gente tem, por exemplo, tem um setor de licitação, aí parece que tem um procurador para cada setor. E aí o procurador ainda manda para a Procuradoria-Geral do Estado. Aí a “coisa” não vai.
MidiaNews – Isso é ruim para o setor?
Julio Flávio Campos de Miranda – Isso é ruim, pois o setor está precisando de celeridade. Se tiver a celeridade, as empresas têm trabalho, o que faz com que haja um número maior de investimentos.
MidiaNews – Qual o peso das obras públicas para o segmento da construção civil em Mato Grosso?
Julio Flávio Campos de Miranda – Não tenho um número exato, mas acredito que chegue a 30%, mais ou menos.
MidiaNews – Então, o Estado tem um papel fundamental de fomentar a cadeia?
Julio Flávio Campos de Miranda – Muito. Principalmente a habitação, porque obras de infraestrutura requerem a construção de escola, precisa construir creches, é preciso garantir a estrutura viária para interligar as cidades. É preciso uma série de obras para garantir o funcionamento da engrenagem do Estado. O desenvolvimento passa por essa infraestrutura e cabe ao Estado levar esses investimentos.
O novo Hospital Universitário, por exemplo, parece que tem R$ 50 milhões na conta do Governo Federal. Me parece que tem dinheiro do Governo Estadual também, e desde o começo do ano passado, estão comentando que vão soltar a licitação. É o tipo de obra que movimenta a cadeia.
MidiaNews – E como está o diálogo com o govenador? Vocês levaram alguma pauta de reivindicação a ele?
Julio Flávio Campos de Miranda – Tivemos uma reunião com o governador até antes de eu tomar posse na presidência do sindicato. Tomei posse em dezembro passado. Ficou definida uma agenda que acabou sendo cancelada em cima da hora. Essa reunião ficou de ser remarcada, ainda no ano passado e não foi [A reunião aconteceu na sexta-feira, após a gravação desta entrevista].
Na pré-conversa, nós falamos ao governador a importância da habitação. Hoje a gente não viu falar ainda nada, por parte do Governo do Estado, sobre a política habitacional, quantas casas o Governo vai executar, como vai se ou como não vai ser.
Nós levamos ao governador um pleito – assim como existe a Casa Goiás, Casa São Paulo – de o governador entrar com uma contrapartida, em média de 10%, tipo um Minha Casa Minha Vida. Financiaríamos casas de R$ 50 mil a R$ 120 mil e o Governo entraria com 10%, que seria para resolver essa parte de infraestrutura. Essa linha é uma linha que tem recursos, uma linha subsidiada, com subsídio de R$ 15 mil. Então, quando você for financiar uma casa de R$ 80 mil, só de subsidio e FGTS o Governo Federal te dá R$ 15 mil. Aí você financia R$ 65 mil. Se o Governo entrar com percentual em torno de 10%, ou seja, mais R$ 8 mil, você financia R$ 58 mil. Isso faz com que você tenha uma parcela de R$ 200 a R$ 300, que é uma parcela justa.
Nós também apresentamos ao governador um estudo que mostra que esses 10% que ele iria entrar agora, de imediato, já volta para a cadeia. Só na área de combustível, de Fethab, movimentando as indústrias aqui do Estado, esse valor já volta imediatamente.
Nós levamos a Acomac (Associação dos Comerciantes de Materiais de Construção do Estado de MT) na reunião, pois hoje 60% das vendas das lojas de material de construção são desses novos conjuntos entregues, que o cliente já vai fazer uma ampliação, vai fazer um muro, uma nova edícula, uma piscina. A Acomac, nessa reunião, afirmou ao governador que, de arrecadação só da Acomac ele já tem mais 10%.
Fizemos um projeto para o Governo, para ele desembolsar R$ 100 milhões por ano, nos próximos três anos. Falamos que nós íamos trazer R$ 3 bilhões para o estado, para movimentar a economia. Isso movimenta não só a indústria da construção civil, mas também a indústria da tinta, a indústria da madeira, que diminuiu muito em Mato Grosso, a indústria de cimento, de material básico, de esquadrias, uma cadeia gigante de outras indústrias. Nós precisamos dessa contrapartida do Governo, o que é bom para movimentar a economia.
MidiaNews – Sobre essa questão de infraestrutura e de investimentos, sabemos que aqui em Cuiabá, por exemplo, houve um problema no passado com a CAB Cuiabá. O próprio Sinduscon divulgou levantamentos mostrando que a empresa deixou de executar serviços que eram de sua responsabilidade, inviabilizando uma série de investimentos na Capital. Isso já está sanado, já foi solucionado?
Julio Flávio Campos de Miranda – A concessionária deixou de fazer a ligação de água externa. As empresas, a maioria delas, concordavam em fazer a parte interna do empreendimento e entregar para a CAB, que deveria fazer essa interligação bairro a fora.
Então, ainda há essa dificuldade. Na verdade, a situação piorou. A parte da CAB piorou, já que, para algumas pequenas coisas, até pouco tempo atrás, ela tinha recursos para fazer. De abril do ano passado para cá, eles conseguiram um empréstimo do BNDES, gastaram a primeira parcela do empréstimo, a maioria desse gasto foi para realizar melhoria da parte de informatização da empresa. A parte de investimento em rede de água, esgoto, cano para levar água para a população e esgoto para tratar isso foi muito pouco.
E, agora, com o fato de a empresa estar em recuperação, envolvida em escândalos da Lava Jato, aí parou tudo. A empresa está hoje só fazendo a parte de manutenção e política de hidrômetros. Novos investimentos não são feitos.