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Intolerância religiosa é realidade em Mato Grosso; veja os casos
Lideranças religiosas comemoraram a escolha do tema
Pelo menos cinco casos suspeitos de intolerância religiosa foram registrados em Mato Grosso nos últimos dois anos.
Este foi o tema da prova de Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2016 aplicada neste domingo (6).
Os casos
No dia 7 de maio deste ano, a muçulmana F. J. S. M., de 27 anos, entrou em um posto de combustível, na avenida Miguel Sutil, em Cuiabá, quando um homem começou a gritar, de forma insistente, para ela e o marido, o termo "Insha Allah". Humilhada, ela chamou a Polícia Militar. O acusado Edval Alves Ribeiro, 44, que estava bebendo cerveja, resistiu à prisão, mas acabou sendo conduzido à Central de Flagrantes.
Na noite do dia 28 de julho de 2015, em Rondonópolis, um Centro Espírita - a Associação A Caminho da Luz - foi incendiado e invadido pela quarta vez. A responsável pela unidade, Elcha Britto, registrou boletim de ocorrência e lamentou tanto as perdas materiais quanto a suspeita de que isso possa ter ocorrido apenas por discordância de fé.
Dois dias depois, em Cuiabá um "terreiro" de Umbanda atuante há 26 anos - Casa Espírita Virgem Imaculada Conceição - foi invadido no dia 1 de agosto do mesmo ano. O que deixou a suspeita deste ser mais um caso de intolerância religiosa é que os vândalos tiveram como alvos as imagens e utensílios usados em rituais.
Estes foram alguns dos casos registrados.
Estatísticas
A Polícia de MT no entanto não tem dados precisos sobre esse tipo de ofensiva, já que se diversifica e é atendida em diversas delegacias de acordo com o "atentado" cometido.
Lideranças religiosas
Lideranças religiosas ligadas ao Fórum Permanente pela Paz, que atua em prol do ecumenismo e do diálogo inter-religioso cristão, comemoraram a escolha do tema pela equipe de elaboração do Enem, entendendo que essa intolerância já passou dos limites e isso deve ser mesmo pautado no país.
O professor mestre em Educação, Pedro Piloni, da comissão de coordenação do Fórum Permanente pela Paz, ressalta que o agravante da intolerância é a exclusão do ser humano.
"Se você não é da minha grei não merece minha consideração", comenta Piloni, que é espírita, usando uma palavra bíblica - "grei" - que significa agremiação. "Isso é um crime contra a humanidade e não é forma de ver o outro como irmão, é uma distorção do cristianismo", critica.
Ele relembra o episódio de agressão à santa católica , em 2007, um caso legendário no país de intolerância religiosa.
Em 1994, no dia da Padroeira do Brasil, o evangélico Sérgio Von Helde, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, ao vivo, em um programa de televisão.
"Isso é estado de barbárie. Estamos no século 21 e já são mais de 12 mil anos de civilização, mesmo assim não foram suficientes para mudar o comportamento primário de alguns", rechaça.
Para ele, o caminho para mudar isso começa em casa. "Educação em família, é isso que forja valores, crenças e verdades. A escola é importante também".
Piloni destaca que o fundamentalismo religioso é que gera a intolerância. O extremismo, segundo ele, se afasta de valores fraternais e se aproximada das "aberrações".
O que incomoda a católica Cleufa Flach, que também é do Fórum Permanente pela Paz, é que uma série de religiosos, de tendência intolerante, "dominaram" os parlamentos, eleitos, e lá trabalham para barrar assuntos que possam ser incômodos a eles, como aborto e casamento homoafetivo.
"Eles consideram diabólico tudo aquilo com o que não concordam , não são capazes de dialogar, discutir, avançar", diz ela se referindo a evangélicos extremistas.
Segundo Cleufa, esses evangélicos se recusam a integrar movimentos ecumênicos, exceto os das igrejas protestantes tradicionais, como a Batista, Presbiteriana e Metodista.
Ela não vê problema de um religioso se eleger. "Mas não pode se manifestar, usando o nome de Deus, para se colocar acima das outras pessoas, é um desrespeito com quem pensa diferente e quer políticas públicas diferentes das deles", opina.
Cleufa diz ainda que fazem isso à revelia da Constituição que caracteriza o estado brasileiro como laico.
O apóstolo Jomar Freitas, do Conselho de Ministros Evangélicos de Mato Grosso (Comec), diz nunca ter visto um caso de intolerância se quer dentro das igrejas evangélicas que conhece.
"Nossa linguagem é de amor e pacificação", afirma, dizendo que é isso que recomenda.
Ela acredita que "quando uma pessoa busca uma igreja deve procurar aquela com a qual mais se identifica e que não não há qualquer problema nisso".
Lembra ainda que, entre cristãos, Deus é o criador e Jesus, o filho, inspiração para o bem.
Conforme a lei
O professor doutor em Direito Constitucional, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Saul Kidaldi, explica que estado laico é aquele que não privilegia o poder àqueles desta ou aquela crença religiosa. É o estado racional e não emocional, cristão, islâmico ou de outra profecia qualquer.
Ressalta que a Constituição de 88 garante o estado laico, embora em repartições públicas e tribunais, por exemplo, não sejam incomuns os símbolos religiosos, como crucifixos, por exemplo.
Nem sempre foi assim, na lei maior de 1824 em seu artigo 5º dizia que: “A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior do Templo”.
Para o professor Kidaldi, quanto à defesa de ideias, ele não vê problema que um religioso extremista por exemplo vete, no Congresso, politicamente, com seu grupo, assuntos como aborto e casamento homofetivo.
"Assim como eles, a maioria da população brasileira também é conservadora e então está sendo representada", observa. "Liberar o aborto e permitir o casamento gay é avanço em que sentido?" - questiona.
Direitos Humanos
Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de Paris, 1946, em seu artigo 18, diz que toda pessoa tem direito à religião.
"Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos".
No Brasil, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é comemorado no dia 21 de janeiro.
Campanha Nacional
O Ministério da Cultura lançou dia 10 de maio deste ano a campanha Filhos do Brasil contra a intolerância religiosa, com inserção de peças publicitárias a serem veiculadas na televisão e na Internet. A ação é uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) e da Fundação Cultural Palmares.
Segundo o MinC, Filhos do Brasil, cujo embaixador é o cantor e compositor Arlindo Cruz, "é uma campanha que tem como meta valorizar a diversidade religiosa e o respeito ao próximo".
Enem
Com toda essa complexidade, o assunto foi trabalhado por alguns professores de cursinhos pré-Enem, que acertaram o tema.
Quem não havia escrito sobre isso ainda, ou se apropriado melhor do tema, sentiu dificuldade.
Cada uma das provas de Redação serão corrigidas por dois profissionais da área e, se houver uma discordância entre eles de 100 pontos, um terceiro também fará a avaliação.
O resultado do Enem está previsto para 19 de janeiro.