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“Se havia núcleo de inteligência, era clandestino”, diz Nerci Denardi
Ex-comandante prestou depoimento na 11ª Vara Militar de Cuiabá
O coronel Nerci Denardi, que comandou a Polícia Militar de Mato Grosso entre os anos de 2013 e 2015, afirmou que se houve mesmo um Núcleo de Inteligência na corporação, tratava-se uma estrutura clandestina.
Ele prestou depoimento nesta sexta-feira (2) na ação penal que apura os crimes cometidos por militares no caso dos grampos. A oitiva ocorreu na 11ª Vara Militar de Cuiabá e foi conduzida pelo juiz Murilo Mesquita.
O núcleo teria sido criado pelo coronel Zaqueu Barbosa, na época coordenador de Inteligência da PM. Foi por meio do núcleo que teriam ocorrido as escutas clandestinas no Estado.
Havia um termo de cooperação técnica firmado pelo Estado e o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) para que a Inteligência da PM utilizasse um dos canais de interceptação do sistema Guardião. O convênio foi suspenso após o escândalo vir à tona.
“Não tinha conhecimento desse grupo de inteligência. Se o núcleo foi criado, foi de forma clandestina, porque o comando geral da PM não tinha conhecimento”, disse Denardi, para quem, até então, havia apenas um serviço de inteligência e não um núcleo estruturado.
O esquema dos grampos funcionou por meio da “barriga de aluguel”, quando números de pessoas não investigadas – boa parte adversários políticos do Governo - foram inseridos indevidamente em pedidos de quebra de sigilo telefônico, simulando que seriam contatos de criminosos.
Questionado se haveria interesse pessoal de Zaqueu em relação às pessoas interceptadas, o coronel respondeu não ver "motivo nenhum da Polícia Militar em grampear essas pessoas”, disse.
Durante o depoimento, Denardi afirmou que conheceu Zaqueu em 1993, na Academia de Polícia. “Ele sempre foi muito reconhecido por todos”.
“Sou da área operacional e não entendo muito de inteligência. Como o Zaqueu assumiu a inteligência e como ele era meu homem de confiança, ele que cuidava dessa área. Tudo o que recebia passava para o Zaqueu”, afirmou.
Denardi comentou que compartilhamento do Guardião com a PM era para apurar possíveis condutas ilegais de militares.
São réus do esquema o ex-comandante da Polícia Militar, coronel Zaqueu Barbosa; os coronéis Evandro Alexandre Lesco e Ronelson Barros, ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar, respectivamente; o coronel Januário Batista; e o cabo Gérson Correa Júnior. Dos cinco, apenas Gérson continua preso.
Major também depõe
O major PM Lucélio Ferreira Martins, que também trabalhou no setor de escutas no Gaeco, afirmou que erros acontecia e que, muitas vezes, foram incluídos números equivocados em operações.
“Em 2013, em Vila Rica, o GCCO identificou que um número do Pará tinha feito uma recarga lá. Depois se constatou que era um pastor furador de poço artesiano. Esses erros acontecem”, disse.
“O setor de inteligência do Gaeco tinha muito serviço. Dividimos em equipes. Tínhamos cinco integrantes e tinha cinco operações rolando. O cabo Gerson tinha uma habilidade diferenciada dos demais, gostava demais do que fazia, não tinha horário para ele. Nessa época a gente dormia lá para dar conta do serviço", afirmou.
"Quando você compartimenta, você divide com menos pessoas a informação. Mas se a carga é grande, temos que delegar a outras. A ponto de uma equipe inteira trabalhar na mesma operação", completou.
A defesa de Gerson questiona se o cabo, alguma vez, demonstrou interesse nas conversas grampeadas.
O Major responde que não. “Inconcebível”.