Sargento diz que instalou câmera em farda a pedido de Lesco
João Ricardo Soler negou, no entanto, saber que equipamento seria utilizado para gravar Perri
O sargento da Polícia Militar João Ricardo Soler confessou em depoimento à Polícia Civil, nesta quinta-feira (5), ter instalado uma câmera na farda do tenente-coronel José Henrique Soares, a pedido do coronel Evandro Lesco, ex-chefe da Casa Militar do Estado.
Soler, afirmou, no entanto, que não sabia que o equipamento seria usado para gravar declarações do desembargador Orlando Perri, responsável pelas investigações sobre o esquema de grampos. A ideia, segundo os investigadores, era tirar as falas de Perri do contexto com o propósito de alegar a sua suspeição em relação às investigações.
“Ele realmente disse que recebeu a farda e instalou o equipamento, a pedido do coronel Lesco. Mas ele não tinha conhecimento do que estava por trás disso”, disse o advogado Reinaldo Josetti, que faz a defesa do sargento.
Soler foi interrogado pelos delegados Ana Cristina Feldner e Flávio Henrique Stringueta, no Complexo Miranda Reis de Juizados Civil e da Fazenda Pública.
O militar – que foi detido no último dia 27, durante a Operação Esdras, e encontra-se detido na Ronda Ostensiva Tático Móvel (Rotam) - chegou ao local por volta de 9h e saiu às 12h30. O sargento não quis falar com a imprensa e usou um papel no rosto para evitar imagens.
Além dele, também foram presos o coronel PM Airton Siqueira (ex-secretário de Estado de Justiça), o delegado Rogers Jarbas (ex-secretário de Estado de Segurança Pública), o coronel PM Evandro Lesco (ex-chefe da Casa Militar), sua esposa Helen Christy, além do advogado Paulo Taques (ex-chefe da Casa Civil), Michel Ferronato (do setor de Inteligência da Sesp) e o empresário José Marilson. Este último já foi solto.
O advogado informou que ainda está tomando “pé” do processo contra o sargento para entrar com pedido de revogação da prisão. “O material é bastante extenso. Estamos analisando tudo. É bem prematuro falar [sobre o caminho da defesa] agora. A delegada está relatando o inquérito. Vamos ver como vai ser o relatório dela, vai para o oferecimento de denúncia, enfim”, disse.
Josetti informou que Soler está bem “tranquilo” e à disposição da Justiça. “Com o depoimento, ele está aguardando o parecer do desembargador, da delegada, está à disposição para prestar esclarecimentos que estão na esfera de conhecimento dele”, disse.
Operação Esdras
A Operação Esdras desbaratou o grupo acusado de montar uma estratégia para atrapalhar as investigações relacionadas aos grampos ilegais e obter a suspeição do desembargador.
A operação só foi possível graças à denúncia do tenente-coronel José Henrique Soares, escrivão do inquérito policial militar sobre o caso dos grampos, que havia sido cooptado pelo grupo, mas se arrependeu. Ele entregou à Polícia Civil uma farda, em cujo bolso estava acoplada a câmera que seria usada para filmar o desembargador.
O nome da operação é uma referência ao personagem Esdras ("Aquele que ajuda, Ajudador, Auxiliador"), da tradição judaico-cristã. Ele liderou o segundo grupo de retorno de israelitas que retornaram de Babilónia em 457 a.C. .
Descendente de Arão, o primeiro Sumo Sacerdote de Israel, Esdras era escriba (copista da lei de Moisés) entendido na lei de Moisés.