Roseli: propina era usada em despesa pessoal e assistencialismo
Em delação, ex-secretária diz que empresas contratadas devolviam parte dos valores pagos pela Setas
A ex-secretária de Trabalho e Assistência Social, Roseli Barbosa, confessou, em acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), que recebia propina de várias empresas que prestavam serviços ou mantinham convênios com a pasta, entre 2011 e 2014.
Parte do dinheiro que recebia, afirmou, era usada para pagar contas pessoais, como faturas de cartão de crédito. Conforme ela, o ex-governador Silval Barbosa (PMDB), seu marido, não sabia do esquema.
Ainda conforme a ex-primeira-dama, outra parte da propina era utilizada para ajudar nas ações sociais cujo orçamento da Setas não cobria, como, por exemplo, na compra de caixões.
O caso foi investigado na Operação Ouro de Tolo, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado), em 2015.
À época, a ex-secretária chegou a ser presa preventivamente, acusada de liderar organização criminosa que teria fraudado mais de R$ 8 milhões na Setas.
Em depoimento à procuradora da República Vanessa Cristhina Scarmagnani, em 22 de maio deste ano, Roseli relatou que recebeu propina dos institutos de Desenvolvimento Humano (IDH) e Concluir e da empresa Seligal.
Segundo ela, foi seu assessor especial Rodrigo Marchi quem tratou com o empresário Paulo César Lemes, dos institutos IDH e Concluir sobre um retorno de 4% a 5% sobre os pagamentos.
“(...) Que o 'retomo' repassado pelo empresário Paulo César era por meio de dinheiro em espécie, sendo sempre por meio de Rodrigo de Marchi; Que o 'retorno' em espécie recebido pela declarante, por meio de Rodrigo de Marchi, ficava guardado no gabinete da declarante na Setas; Que a declarante entendia que esse 'retorno' devolvido por Paulo Cesar era no intuito de que os contratos fossem mantidos, bem como o pagamento fosse realizado em dia pela Setas; Que a declarante esclarece que o "retomo" era destinado para despesas de assistencialismo e também para despesas pessoais”, diz trecho da delação.
Os institutos de Paulo César foram responsáveis pela confecção das apostilas que eram oferecidas pelo Governo do Estado para capacitação profissional.
Em 2013, foram identificados erros grotescos e ofensivos sobre informações de municípios mato-grossenses no material didático.
Roseli não soube dizer, porém, se a má qualidade das apostilas entregues por Paulo César era para que pudesse honrar com o "retomo".
“(...) Pois o material que Paulo César apresentou previamente à declarante era um material muito bom, com boa qualidade; Que a declarante estranhou a qualidade das apostilas distribuídas, pois na Setas havia um setor de revisão, com pessoas contratadas para isso”, diz outro trecho da delação.
Empresa Seligel
Na delação, Roseli Barbosa contou que, em 2011, tomou ciência, através de Marchi, que o proprietário da empresa Elza Ferreira dos Santos Serviços, a Seligel, vinha fazendo um repasse de propina no valor de R$ 10 mil, desde a gestão passada.
A ex-secretária afirmou que autorizou o assessor a continuar recebendo o valor. “Valor esse que era recebido pessoalmente por Rodrigo de Marchi, o qual pagava alguma demanda necessária e repassava o remanescente para a declarante; Que além de custear igualmente algumas despesas extras da secretaria, como pedidos de vendas de convites, rifas, auxílio na compra de passagens solicitadas, pagamento do papai noel mensal, mesmo fora do período de natal, a declarante também usou parte de tal montante para custear despesas pessoais, porém não sabe especificar quais”, diz trecho da delação.