“Procurador e ex-Intermat eram desesperados por dinheiro”
Filinto Muller diz que Chico Lima e Afonso Dalberto cobravam repasses assim que eram feitos
Delator da 4ª fase da Operação Sodoma, o empresário Filinto Muller relatou que o procurador aposentado do Estado Francisco Lima Filho, o "Chico Lima", e o ex-presidente do Intermat, Afonso Dalberto, eram "desesperados por dinheiro".
A declaração foi dada em audiência da ação penal derivada da operação, ocorrida nesta terça-feira (18), e conduzida pela juíza Selma Arruda, da Vara Contra o Crime Organizado da Capital. Chico Lima e Afonso Dalberto foram presos na operação, mas Dalberto conseguiu a soltura após firmar termo de delação premiada.
Filinto Muller detalhou como funcionou o suposto esquema, ocorrido por meio da desapropriação de uma área de 55 hectares no Bairro Jardim Liberdade, em Cuiabá.
A área, de acordo com a Defaz e o Ministério Público Estadual (MPE), custou aos cofres públicos R$ 31,75 milhões, dos quais metade do valor (R$ 15,8 milhões) teria sido desviado.
O empresário contou que era o responsável por fazer a lavagem do dinheiro por meio de sua empresa de fachada, a SF Assessoria, que "pulverizava" o dinheiro para os demais membros do esquema que, em tese, era comandado pelo ex-governador Silval Barbosa (PMDB).
Segundo ele, nas datas em que deveria fazer os repasses, os integrantes do grupo mais "afoitos" por receber os valores eram Chico Lima e Afonso Dalberto.
"Chico e Afonso eram desesperados por dinheiro. Eu tinha que fazer a transferência na mesma hora. Os outros eram tranquilos, deixavam até acumular. O dinheiro caía na minha conta às 9h e às 12h o Afonso já queria na conta dele".
Divisão do desvio
Filinto Muller disse que dos R$ 15,8 milhões desviados, R$ 10 milhões foram destinados ao empresário de factoring Valdir Piran. O valor seria para pagar uma dívida de Silval Barbosa com Piran.
"O que eu tenho certeza é os R$ 10 milhões que eu passei pro Piran. Os outros exatamente não sei dizer quanto passei, tem anotado no dossiê apresentado na delegacia".
"Dos R$ 5 milhões que sobrava, 3% era meu e o resto era dividido entre eles. Tirando o Marcel [de Cursi], que eu nunca entreguei documento, o resto eu mesmo fiz os pagamentos".
Ele afirmou que a maior parte dos R$ 5 milhões restantes ficava com Chico Lima e Pedro Nadaf, "e a menor parte era de Marcel, Afonso e Arnaldo".
"Teve uma reunião que o Pedro me disse claramente: 'do dinheiro do Silval cuido eu. Do dinheiro do Marcel, cuido eu. O Chico cuida da parte do Arnaldo e Afonso'. A cada pagamento que ia caindo, Chico e Nadaf iam me dando as coordenadas do que fazer".
"Falcatruas" descobertas
De acordo com o delator, o jornalista Antônio Milas, do jornal Centro Oeste Popular, descobriu as "falcatruas" do grupo e passou a extorqui-los.
"O jornalista estava extorquindo o Nadaf e me extorquindo também. Eu era ético e não quis descontar deles o dinheiro que o jornalista cobrava. Daí fui chorar pro Piran, e ele mandou eu descontar deles. Foi quando eu descontei. Foi pago R$ 300 mil para o jornalista".
Relação com Piran
Filinto Muller disse que tratou do repasse dos R$ 10 milhões diretamente com Piran e que o empresário sabia que o dinheiro vinha do esquema de desapropriação.
"Nadaf me disse "vai lá e se apresenta". Eu fui na Piran Factoring, nunca tinha ido lá antes. Eu disse que ia receber parcelado e ia pagar pra ele [Piran]. Ele sabia que era da desapropriação. Eu não precisei falar, ele sabia dos detalhes todos".
"Eu estranhei ele pedir o cheque caução de R$ 7,5 milhões. Eu disse que não estava entendendo, mas dei. Eu sabia que se eu recebesse não teria coragem de não pagar, então tava lá. R$ 1,250 milhão de cada parcela seria destinada ao Piran".
O delator disse que o primeiro repasse a Piran foi de R$ 2,5 milhões, equivalente a duas parcelas."Se eu não me engano, transferi tudo para o grupo São Benedito. Eu dizia 'Piran, recebi o dinheiro'. Ele dizia 'vem aqui', eu ia e ele me passava as contas".
"Eu não sei valores detalhados. Mas dos R$ 10 milhões, se não me engano, R$ 5 milhões foi para o grupo São Benedito. Entrou uma vez R$ 1 milhão e pouco em espécie para o próprio Piran. O restante foi pulverizado".