Pistolagem atinge centenas de famílias em Mato Grosso
Pastoral da Terra e entidades de Direitos Humanos confirmam que violência no campo é promovida por fazendeiros
Pistoleiros afetaram 272 famílias que vivem em Mato Grosso em 2016. Ao todo, 40.028 estão envolvidas em conflitos agrários violentos.
São mulheres, homens e crianças que receberam e muitas delas ainda recebem ameaças na rotina, em áreas rurais, correndo risco de serem executados a exemplo do que aconteceu na última quarta-feira (19), em Colniza (1.065 Km a Noroeste de Cuiabá).
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Em Colniza, nove homens foram mortos na chacina. A perícia verificou que alguns dos corpos estavam amarrados e, outros, decapitados.
No momento, em torno de 7 mil famílias mato-grossenses ou que vieram para o Estado em busca de terra estão envolvidas em conflitos rurais.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Fórum de Direitos Humanos e da Terra e o Conselho Estadual de Direitos Humanos denunciaram mais uma vez esta situação nesta terça-feira (25).
De acordo com o coordenador da CPT em MT, o historiador Cristiano Cabral, os alvos dessa violência no campo são pobres, pequenos produtores rurais, assentados, acampados ou posseiros, indígenas, trabalhadores tratados como escravos e quilombolas, além daqueles que se colocam contra a invasão de usinas hidrelétricas nos rios locais.
A CPT afirma que, por outro lado, os agressores são fazendeiros que contratam jagunços para amedrontar, calar, expulsar ou mesmo eliminar quem os estiver incomodando em negócios rurais.
"Fazendeiros querem mais terra, querem aumentar suas fazendas, empurrar as cercas", comenta Cabral.
Ele conta que, em audiência aberta, na presença de juiz, delegado e representante do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), um fazendeiro chegou a dizer publicamente que gasta de R$ 9 a 12 mil por mês com pistoleiros. "Falou isso e ninguém fez nada. Se fosse o inverso, já estaríamos presos", reage o coordenador.
Para ele, "a situação ao invés de melhorar está piorando, a cada vez que valoriza mais commodities de gado e os grãos".
Depoimentos
Com apoio da CPT e demais entidades que defendem a distribuição de terras, duas mulheres de Nova Guarita (697 Km ao Norte de Cuiabá), pré-assentadas na Gleba Gama, vieram à Cuiabá para tentar evitar uma nova chacina no local. Na Gleba Gama estão em disputa 409 hectares.
Em 10 anos de pré-assentamento autorizado pelo Incra, 12 famílias afirmam que têm sido hostilizadas de toda forma por proprietários da fazenda ao lado, a Baixa Verde, de pecuária.
A identidade de ambas foi mantida em sigilo, porque correm risco de represálias.
Uma delas, de 43 anos, conta que mora na Gleba Gama com o marido e o filho de 10 anos e que o menino sofreu uma perseguição, ontem mesmo, enquanto ela está aqui na capital tentando garantir segurança na área.
"Ele ia na casa de um vizinho e mandaram voltar para traz porque não podia andar por aí, uma criança de 10 anos...Se a gente continua na terra é porque não está aqui atrás de baderna e sim de plantar o que vai comer", reage a mulher.
Ela conta ainda que o filho não quer mais ir ao colégio, porque tem medo de chegar em cada, na volta da escola e encontrar os pais mortos.
A outra, de 34 anos, chorando, narra que a vida no local está insuportável, que pistoleiros não dão sossego, que passam pelos lotes aterrorizando as famílias. "Não temos um minuto de paz. Por que nos abandonaram lá assim?" - questiona, se referindo ao Estado.
Em 2013, a casa dela foi incendiada e no mesmo ano passaram com um avião liberando veneno encima dos moradores. "Ficamos intoxicados, quase morremos, corremos para hospital", lembra ela. Já ano passado, depois de muitas vezes romperem a cerca envolta do lote dela, fizeram uma cruz com a madeira, dando um aviso subliminar de morte.
Tragédias anunciadas
Somente moradores da Gleba Gama, em 10 anos, já registraram 396 boletins de ocorrência. Um calhamaço de registros policiais que não deram em nada, como reclama o sociólogo Inácio Werner, do Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso, afirmando que os casos não são devidamente investigados.
Segundo ele, ao longo dos anos, se consolidou uma verdadeira organização criminosa, no Norte de Mato Grosso, especializada em pistolagem e grilagem de terras, com anuência dos poderes constituídos.
Na última década, segundo ele, foram registrados pelo menos 130 homicídios em Mato Grosso, decorrentes de conflitos rurais, sem que qualquer pessoa tenha sido presa ou responsabilizada por eles, o que configura cenário de impunidade total.
O temor é que isso aconteça com relação à chacina em Colniza, ou seja, muito clamor inicial e depois disso o esquecimento.
A CPT entende que o crime no campo em Mato Grosso compensa, porque é institucionalizado, ignorado pela forte bancada parlamentar ruralista e pelos governos.