Homem é esfaqueado ao tentar separar briga de casal e acaba ferido em Sorriso
Personal trainer supera agressões e encoraja vítimas de violência
As violências, contudo, começaram há pelo menos três meses antes da agressão
Quem vê a personal trainer Mel de Pietro, 30, esbanjando autoconfiança e independência, não imagina que há quase 2 anos ela sofreu um dos piores traumas de sua vida. No dia 8 de janeiro de 2018 apanhou no rosto por cerca de 40 minutos do seu ex-companheiro, que também a ameaçou de morte. As violências, contudo, começaram há pelo menos três meses antes da agressão.
"Eu acho que a partir do momento em que você não pode ser você mesma já está errado. Quando eles começam a querer proibir de ser quem você é já está errado. Tudo parte muito de ciúmes, de um ciúmes doentio, então você cede no começo e eles vão querer crescer pra cima sempre. Você acaba ficando doente e fica muito difícil sair do relacionamento porque você não enxerga", explicou.
Seu ex-companheiro era faixa preta em judô e jiu-jitsu e a golpeou com socos no rosto e na região da cabeça. Enquanto a agredia, ameaçava jogá-la no 16º andar do prédio em que estavam, em Balneário Camboriú, Santa Catarina, além de jogar e ocultar seu corpo no rio. Depois disso, ele fugiu e não foi mais visto.
O relacionamento começou em setembro de 2017, por meio de amigos em comum. Mel relatou que ele sempre teve um comportamento ciumento e a impedia de usar roupas curtas ou decotadas, além de tentar afastá-la de amigos e de seus familiares.
"Ele sempre falava muito alto. E aí brigava, depois pedia perdão e dizia que iria mudar, que não iria ter crise de ciúmes. Aí você perdoa, só que isso vai acontecendo com mais frequência. Ele falava que eu não precisava de ninguém, que meus amigos não eram meus amigos e eu só precisava dele. Ele falava que eu era feia, que ninguém ira me querer, então você vai entrando num ciclo vicioso em que você vai acreditando naquilo. Eles vão abaixando a sua autoestima e isso é violência psicológica".
Antes da última agressão, o homem a enforcou e jogou contra a parede durante uma crise de ciúmes. Por sorte, a mãe de Mel estava em casa e pode socorrê-la. Foi aí que o relacionamento acabou. Ele, contudo, não aceitava o término e continuou a procurá-la. Até que, por fim, resolveu agredi-la.
"Eu não conseguia terminar. A gente sempre brigava e acabava voltando. Eu acreditava nas desculpas e achava que ele iria mudar. Eu me sentia dependente, porque a gente quando está apaixonada acaba que fica meio cega, né? Faz loucura no calor da paixão, então eu sempre acreditei na mudança dele, nunca acreditei que fosse acontecer uma agressão".
Morando sozinha na cidade catarinense, Mel entrou em depressão profunda e começou a ter crises de pânico e ansiedade. Por um tempo, ela se afundou no álcool, nas drogas e nos medicamentos. Quando saia às ruas, os questionamentos eram sobre o que ela tinha feito para ter apanhado. Ela, então, começou a se isolar em casa.
A depressão foi o estopim para que ela tomasse uma atitude. "Se eu continuar assim, ele me mata ou eu acabo me matando", foi o que pensou antes de decidir voltar para Rondonópolis (212 km ao sul de Cuiabá), sua cidade natal. Com o apoio de familiares e amigos, ela conseguiu superar as chagas deixados pelo relacionamento abusivo.
"A parte física foi o de menos, porque hematoma cura em uns 10 dias. Tudo parte de um querer e aí foi dando certo. Fui vendo as coisas com outros olhos e deixei de questionar e tentar entender o porquê que eu estava passando por aquilo. Eu vi que eu não tinha culpa de nada e que o doente era ele."
Antes bancária, ela foi demitida depois do acontecido. Já na cidade mato-grossense, decidiu se reinventar e começou a fazer um curso de educação física, área que sempre teve afinidade. Quase dois anos após o crime, seu agressor nunca foi preso e responde a um processo judicial.
"Hoje eu estou bem, me recuperei. Não tenho nenhum trauma, nem relacionado a outras pessoas, nem à minha história. Eu falo disso tranquilamente", finalizou.