"Paulo prometeu ajuda financeira para blindar governador”, diz cabo Gerson Corrêa
Ele prestou novo depoimento no Fórum de Cuiabá
O cabo da PM Gerson Corrêa, réu da ação penal que apura um esquema de grampos operado em Mato Grosso, afirmou que recebeu proposta do ex-secretário chefe da Casa Civil Paulo Taques para que blindasse, em seus depoimentos, o governador Pedro Taques (PSDB).
"Quero informar que, enquanto eu estive preso no CCC [Centro de Custódia de Cuiabá], recebi a promessa do senhor Paulo Taques, por duas vezes, de ajuda financeira para arcar com os custos do processo. Ele me pediu para que [o processo] não chegasse no Pedro Taques", afirmou.
A declaração foi feita durante o reinterrogatório do PM nesta segunda-feira (27), na 11ª Vara Militar do Fórum de Cuiabá.
Ele depôs pela primeira vez no dia 27 de julho, uma sexta-feira. O depoimento começou às 23h50 e só foi finalizado às 5h20 de sábado (28).
Naquela ocasião, o cabo confessou que o esquema de interceptações clandestina foi financiado por Paulo Taques, primo do governador Pedro Taques. Ele ainda afirmou que o governador do Estado tinha conhecimento das escutas ilegais.
Grampos na "Ouro de Tolo"
O depoimento teve início às 14h. No início, o cabo afirmou que houve "barriga de aluguel" na operação Ouro de Tolo.
A operação, deflagrada em 2015 pelo Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), teve como um dos alvos a ex-primeira-dama do Estado, Roseli Barbosa.
O esquema de “barriga de aluguel” funciona quando números de pessoas sem envolvimento em crime são listados como sendo de alvos de investigações policiais.
Segundo Gerson, seis números foram inseridos em nome de Roseli no relatório de interceptação, entre eles, o do governador Silval Barbosa, além dos filhos do casal: Rodrigo Barbosa, Ricardo Barbosa e Carla Barbosa, que não eram investigados.
"Na ocasião [primeiro interrogatório] me perguntaram se, no relatório da operação Ouro de Tolo estavam os nomes do filhos do Silval [Barbosa] e da Roseli e eu neguei. Mas eu me equivoquei. Eu encontrei o relatório e, de fato, tinha o número dela e outros cinco números", disse.
“Antes mesmo de iniciar a interceptação a gente sabia que a Roseli estava em Cuiabá e o Silval em São Paulo. Todos os alvos eram decididos em conjunto. O que eu não encontrei foi a ordem de serviço. Quando foi feito o relatório que culminou na operação nós não tínhamos certeza de que todos esses números eram dela”, frisou.
Trama no Gaeco
O cabo revelou uma irregularidade cometida em uma investigação do Gaeco para apurar uma suposta trama de atentado contra a então juíza Selma Arruda, em 2015.
Segundo ele, foi criada uma “estória cobertura” com anuência do então coordenador do grupo, promotor de Justiça Marco Aurélio, e da própria magistrada para interceptar os supostos mentores do atentado.
“Em 2015, Selma foi até o Gaeco falar sobre as ameaças que havia sofrido. O promotor Marco Aurélio me chamou na sala, narrou que ela estava sofrendo ameaças etc. Depois fui até o gabinete da Selma dizendo que Marco Aurélio havia me procurado e pedido para ir até lá", disse.
"Ela narrou que tinha conhecimento que uma pessoa da família de Antonio Carlos Milas tinha recebido algumas pessoas em uma fazenda, dentre elas o deputado Riva. E essas pessoas começaram a tecer comentários sobre ela, que ela era a cabeça do Gaeco”, relatou.
"De imediato levei essas informações ao Marco Aurélio, que abriu investigação de maneira anônima. Foi então que foram incluídos os números do senhor Filadélfio dos Reis Dias, Silval Barbosa e Antônio Barbosa. Eles não tinham nada a ver com a história. Nós inserimos os três no bojo dessa investigação”, afirmou.
Promessa de Paulo Taques
O cabo afirmou que, enquanto estava preso no Centro de Custódia de Cuiabá (CCC), recebeu, por duas vezes, promessa do ex-secretário Paulo Taques para arcar com os custos do processo que responde.
"Eu quero ratificar: o dono disso aqui não sou eu nem o coronel Zaqueu [Barbosa]. O dono disso aqui é o Paulo Taques e o seu primo, Pedro Taques”, falou.
"Quero informar que, enquanto eu estive preso no CCC, recebi a promessa do senhor Paulo Taques, por duas vezes, de ajuda financeira para arcar com os custos do processo. Ele me pediu para que [o processo] não chegasse no Pedro Taques", afirmou.
Questionado, o cabo detalhou os dois encontros que teve com o ex-secretário.
"Nós estávamos presos. [ a conversa] Foi tête-à-tête. Na primeira conversa, ele foi direto e perguntou se eu estava precisando de ajuda. Eu respondi que não", disse
Já na segunda ocasião, ele me ofereceu advogado do escritório dele e eu neguei. Mas aceitei a ajuda financeira. Ele disse que o [ coronel Airton] Siqueira iria procurar minha esposa, mas por graça de Deus ele nunca procurou minha esposa para ajudar", explicou.
Empréstimo de Lesco
O cabo ratificou o depoimento sobre o ex-secretário-chefe da Casa Militar, coronel Evandro Alexandre Ferraz Lesco.
Gerson havia dito que Lesco bancou a equipamentos de interceptação telefônica. No entanto, segundo ele, o dinheiro foi apenas emprestado pelo coronel, que não tinha conhecimento do compra da ferramenta de escutas.
“Eu afirmei que não era empréstimo, mas foi empréstimo. Apesar de ser empréstimo eu não vou pagar porque não tenho condições”, disse.
Conforme Gerson, porém, Lesco pagou as duas primeiras parcelas do local da central de escutas.
“No início de tudo teve montantes que tivemos que pagar locação do imóvel. As duas primeiras mensalidades do aluguel foram dadas pelo coronel Lesco”, afirmou.
Ainda no depoimento, Gerson assumiu que recebeu R$ 50 mil das mãos de Paulo Taques num restaurante na saída para Chapada.
"Não teve mala. O dinheiro foi dado enrolado num papel. Em notas de R$50 e R$100", afirmou.
Correa garante que nunca tratou diretamente com o governador Pedro Taques sobre escutas ilegais.
"Único dia que fui na casa do governador Pedro Taques foi para fazer a mudança dele em 2016. Eu estava na Casa Militar e uma das competências é resguardar a segurança do governador", lembrou.
"Juiz se livrou de organização criminosa"
Segundo Gerson, o juiz Vladimir Perri, da 1ª Vara Criminal de Rondonópolis escapou de ser usado pela organização criminosa em meados de 2015.
"Fui convidado pelo coronel Siqueira para ir conversar com o juiz Wladymir Perri, que estava interessado em ajudar a Polícia Militar a “pegar” policiais corruptos na cidade", revelou.
"O juiz se livrou de cair como vítima do esquema porque não fiz nenhum relato sobre suposta organização criminosa naquela cidade. Se fizesse, novos números seriam inseridos em relatórios que seriam deferidos por esse juiz”, contou. Saiba mais.