Oficiais da PM e secretários estão na lista de visitantes de presos por esquema de grampos em MT
Desembargador Orlando Perri comparou prisões de coroneis e cabo da PM a 'colônia de férias'. Presos aguardam vaga em penitenciária de MS para serem transferidos
Oficiais da Polícia Militar e secretários estaduais estão na lista de visitantes dos coroneis Zaqueu Barbosa (ex-chefe da PM), Evandro Lesco e Ronelson Barros (ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar), e do cabo Gerson Correa Júnior, todos presos por envolvimento em um esquema de grampos clandestinos monitorados por militares entre agosto de 2014 e outubro de 2015.
Na decisão em que pede pela transferência dos PMs para a Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, o desembargador Orlando Perri, relator do inquérito sobre a "grampolândia pantaneira" no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), afirma que, por terem facilidade de contato com outros investigados, os detidos podem prejudicar as investigações em curso e a instrução criminal da ação penal já deflagrada.
No documento, o desembargador ressalta, por exemplo, que o cabo Gerson indicou, em sua lista de visitantes, o coronel Evandro Lesco, antes que ele também tivesse a prisão determinada pela Justiça. Lesco, por sua vez, listou em seu rol de amigos o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), coronel Airton Siqueira, o chefe da Casa Civil, José Adolpho Vieira, e o chefe da Casa Militar, então interino, coronel Wendel Soares Sodré.
"Ou seja, dos 10 visitantes a que têm direito, o preso cel. PM Evandro Alexandre Ferraz Lesco listou apenas sua esposa, um irmão e um cunhado e os outros sete amigos", diz trecho da decisão.
Na lista de visitantes de Lesco constam nomes, inclusive, de outras pessoas que não fazem parte da lista apresentada por ele, segundo Perri, como é o caso do secretário estadual de Segurança Pública (Sesp), Rogers Jarbas, e de diversos policiais militares.
À reportagem, o secretário de segurança negou que os policiais presos estavam recebendo regalias, mesmo após o resultado de uma inspeção feita por juízes. Ele não quis comentar o motivo da visita aos presos. Os outros secretários também disseram que não irão se manifestar.
A Secretaria de Comunicação do estado informou que tem controle sobre as visitas e que os secretários foram visitar os policiais presos para tratar de questões de governo, porque um deles ocupava uma pasta.
Hierarquia e Regalias
O desembargador ressaltou, ainda, que a patente elevada de três dos quatro presos faz com que eles tenham livre acesso às unidades policiais militares, ainda mais porque os locais onde estão recolhidos têm como comandantes tenentes-coronéis, ou seja, policiais com grau hierárquico inferior.
"Sem desmerecer ou por em xeque a integridade moral dos comandantes das Unidades Policiais Militares, fato é que os presos militares, sobretudo os coronéis, podem usar de seu prestígio ou de sua patente para obter benefícios que dificilmente teira em outros estabelecimento prisionais", alegou Perri, na decisão.
Perri ainda criticou os alojamentos onde os policiais estavam recolhidos, afirmando que eles contavam com regalias que nenhum outro preso regular teria acesso, como frigobar, fogão, TV de tela plana e micro-ondas, comparando a situação vivida pelos acusados na prisão se assemelhava a uma "colônia de férias".
Afirmando que os PMs estariam "usufruindo de situação mais digna que muitos brasileiros que trabalham diuturnamente", o desembargador ainda ressaltou que as prisões dos policiais não foi determinada por uma infração administrativa, mas por prática de crimes militares gravíssimos.
Na decisão, Perri afirma que a situação atual dos policiais o fez recordar da prisão construída pelo narcotraficante Pablo Escobar para que nela cumprisse pena, após acordo firmado com o governo colombiano, prisão esta que ganhou o nome de "La Catedral" e era vigiada pelos homens de Escobar.
"Quero deixar claro aqui que não estou comparando os policiais militares presos com nenhum narcotraficante [...]. A única semelhança que vejo é que os presos militares são cuidados por seus próprios homens, o que dificulta, sobremaneira, a vigilância direta e integral", afirmou.
Prisões
Atualmente, o cabo Gerson está preso no Centro de Custódia de Cuiabá, enquanto os três coronéis detidos se encontram em salas especiais: Zaqueu Barbosa está custodiado na Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Esfap); Evandro Lesco está preso na Academia de Polícia Costa Verde; e Ronelson Barros está detido no Batalhão de Operações Especiais (Bope).