Motorista de ambulância enviada para socorrer bebê que morreu desabafa: 'O que a médica fez não existe'
Segundo ele, profissional começou a gritar quando soube que paciente era criança
O motorista da ambulância acionada para prestar socorro ao menino Breno Rodrigues Duarte da Silva, de um 1 e 7 meses, desabafou sobre o fato de a médica Haydee Marques da Silva, de 59 anos, não ter prestado atendimento à criança.
Robson Oliveira, de 50 anos, trabalha há quatro como socorrista. O caso ocorreu nos Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. E, desde que recebeu a notícia sobre a morte de Breno, não se conforma.
— Eu gosto de socorrer. Eu gosto de salvar vidas. O que ela fez não existe. Ela omitiu socorro. Não importa a idade. Se tem um, dois, mil anos. É uma vida e a gente tem que socorrer. Tanto a empresa quanto eu e a técnica fizemos tudo que podíamos ter feito. Tentamos convencê-la. É de uma tristeza sem fim — disse.
Segundo Robson, a médica havia acabado de iniciar o plantão e eles seguiam para uma ocorrência na Penha, na Zona Norte do Rio. No entanto, quando passavam pelo Recreio dos Bandeirantes, receberam um código vermelho.
— Como trabalhamos com a UTI Móvel, trabalhamos com agilidade. Fui o mais rápido que pude. Quando chegamos lá, pedi para porteiro anunciar a chegada da ambulância. Enquanto ele foi fazer o contato, a doutora pediu à técnica de enfermagem as informações sobre o paciente. Quando ela falou o nome, a médica logo pediu a idade. Ela disse "tem um ano". Depois disso, a médica começou a gritar, fez um escândalo e disse que era para irmos embora. Ela rasgou a guia de internação e ficou histérica — contou.
Robson disse ainda que ele e a colega tentaram acalmar a médica e convencê-la a fazer o atendimento. Mas foi em vão.
— Tentamos convencer, falar que a criança precisava. A técnica ainda falou "doutora, vai ser rápido. Fazemos o atendimento, levamos ele e vai ser bem rápido". Mas ela não parava de gritar. Começou a discutir comigo e se recusou a atender. Eu acionei a base e avisei que a médica não queria atender o paciente. Eles perguntaram o que tinha acontecido e me pediram para aguardar o retorno — contou.
De acordo com o motorista, após a resposta da empresa, a profissional pediu que fossem embora. Ele, então, fez o retorno para deixar o condomínio.
— Ela estava muito nervosa e gritava muito. Dentro da ambulância, o médico é a autoridade. Saímos segundo as ordens dela e íamos aguardar o retorno da base do lado de fora. Ela desceu da ambulância e foi embora. Eu e a técnica avisamos a empresa e aguardamos a ordem de retornar para a base. A empresa me ligou e me pediu para que voltássemos porque outra ambulância estava a caminho. Ela se omitiu. A empresa mandou a ambulância e ela se omitiu — disse.
Robson somente soube da morte de Breno quando chegou à sede da empresa.
— Quando cheguei, todo mundo já sabia. Foi quando me contaram que o paciente que eu ia atender tinha vindo a óbito. Isso acabou comigo — lamentou.
A médica foi demitida da companhia Cuidar Emergências Médicas, que prestava serviços para a Unimed-Rio. Segundo a empresa, a profissional atuava há cerca de quatro anos como prestadora de serviços e nunca havia recebido qualquer queixa sobre sua conduta.
"É uma médica que atua como prestadora de serviços em nossa empresa, há cerca de 2 anos, sem que, até a presente data, apresentasse qualquer tipo de problemas na ordem técnica e comportamental. É uma profissional treinada e habilitada para atendimentos emergenciais, com formação em anestesia. Esclarecemos que no momento não estamos divulgamos nome e CRM da médica por orientação do Cremerj. Estamos apurando o ocorrido, ressaltando que a colaboradora foi afastada de suas funções de modo definitivo. Outrossim, reiteramos o nosso repudio a atitude apresentada pela profissional", diz nota da Cuidar Emergências Médicas.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro abriu uma sindicância para apurar o caso. A Unimed-Rio lamentou o ocorrido e descredenciou a empresa.
"A Unimed-Rio lamenta profundamente o falecimento do pequeno Breno Rodrigues Duarte da Silva na manhã desta quarta-feira, 7/6 e vem prestando apoio irrestrito à família nesse momento tão difícil. A cooperativa tomará todas as providências para descredenciar imediatamente o prestador 'Cuidar', pela postura inadmissível no atendimento prestado à criança. Além disso, adotará todas as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis em razão da recusa de atendimento por parte do prestador de serviço".
'Punição dela não cabe a mim julgar', diz pai do bebê
Pai do bebê Breno Rodrigues Duarte da Silva, Felipe Duarte desabafou nesta quinta-feira sobre a morte de seu filho, de 1 ano e 7 meses. Ele lamentou e fez um apelo à funcionária da Cuidar Emergências Médicas, que presta serviço ao plano de saúde Unimed.
— Não tenho raiva. Só desejo que ela jamais faça isso de novo. Como ela vai pagar, qual punição vai ter, não cabe a mim julgar. Cabe à lei o caminho que ela vai seguir. Meu filho era especial. Pais de filhos especiais já sofrem querendo dar o melhor para as crianças, e vem uma pessoa assim e não cuida, justamente quando mais precisa. Meu filho precisava de cuidado. Se ela não tivesse se omitido, ele poderia estar vivo agora — disse, com a voz embargada.
O corpo de Breno foi enterrado na tarde desta quinta-feira, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, na Zona Norte do Rio. Emocionados, os pais da criança usavam camisa com a frase: "Para sempre nosso campeão".