Investigados por grampos temem delação de coronel Zaqueu
Zaqueu Barbosa está preso preventivamente desde o dia 23 de maio
A suposta organização criminosa que é acusada de realizar interceptações telefônicas ilegais e tentar atrapalhar as investigações sobre o caso, composta por membros do alto escalão do governo e da Polícia Militar temem que o coronel PM Zaqueu Barbosa faça uma delação sobre tudo o que sabe.
É o que revelou o depoimento do tenente-coronel PM José Henrique Costa Soares, escrivão no inquérito policial militar (IPM) relativo ao escândalo dos grampos, aos delegados Ana Cristina Feldner e Flávio Stringuetta, que conduzem as apurações.
De acordo com Soares, ele se encontrou no último dia 13 do major PM Michel Ferronato, que teria sido enviado pelo grupo investigado, que lhe disse que sabia sobre a gravação que o escrivão teria feito de forma clandestina de uma conversa com o desembargador Orlando Perri e que o então secretário de Estado de Segurança Pública Rogers Jarbas precisaria desse áudio também, pois estava sendo alvo da investigação e havia ficado exposto.
Além disso, o major também questionou sobre a possibilidade de prisão do coronel PM e então secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos Airton Siqueira e se havia indícios de que o coronel e ex-comandante geral da Polícia Militar Zaqueu Barbosa fazer delação.
Conforme o escrivão, o contato com Ferronato ocorreu após receber um aviso do coronel PM e ex-chefe da Casa Militar Evandro Lesco, a quem ele estava sendo coagido a ajudar com vazamento de informações sobre o andamento das investigações. No último dia em que se encontraram, na casa do coronel, Lesco lhe avisou que seria procurado por um emissário do secretário de Estado de Segurança Pública, a quem ele deveria atender e seguir todas as orientações.
Já no último dia 12, enquanto jantava em uma peixaria famosa da capital, o escrivão percebeu que havia vários servidores da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) no local e, em seguida, o major Michel Ferronato se dirigiu até sua mesa e lhe disse que no dia seguinte iria fazer uma caminhada no parque Mãe Bonifácia, onde eles deveriam se encontrar.
“(...) naquele instante o depoente deduziu que o MAJOR FERRONATO seria a pessoa enviada pelo SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA, uma vez que não tem intimidade com o mesmo para ter sido ‘convidado’ para caminhar juntos”, diz trecho dos autos.
No dia seguinte, conforme combinado, Soares e Ferronato se encontraram na praça central do parque. O major começou a puxar conversa com o tenente-coronel, questionando sobre sua promoção a coronel, dizendo que era injusto o policial receber boas pontuações, mas não ser promovido, já que isso dependia da decisão do governador. Em seguida, Ferronato teria partido para perguntas mais contundentes sobre o andamento das investigações sobre os grampos telefônicos ilegais.
Coronel Zaqueu
Zaqueu Barbosa está preso preventivamente desde o dia 23 de maio, por ordem judicial decretada pelo juiz Marcos Faleiros da Silva, da 11ª Vara Criminal Especializada em Crimes Militares de Cuiabá, que ressaltou que o coronel Zaqueu e o cabo Gerson Luiz Ferreira já exerceram funções dentro do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), Comando Geral e na Casa Militar e por isso, tinham formas de atrapalhar as investigações.
“Ambos têm influências no próprio Gaeco, Casa Militar e na cúpula da PM, o que facilita, e muito, o encobrimento das provas do crime. Importante salientar que o CB Gerson continua trabalhando na Casa Militar, e tem acesso ao software e hardware de interceptação militar, o que facilita ingressar no sistema para consumir, apagar e/ou destruir provas/indícios de crime. Aqui a prisão preventiva é necessária por conveniência da instrução criminal”, enfatiza o juiz ao justificar o motivo de ter decretado as prisões preventivas.
Conforme foi apurado até o momento, era o cabo Gerson quem realizada as escutas telefônicas e repassava os relatórios para o coronel Zaqueu, que era quem pedia ao juiz que prorrogasse a autorização para as interceptações realizadas na modalidade "barriga de aluguel", ou seja, inserindo números não autorizados em uma ação judicial.