Esgoto, pesticidas e usinas afetam rios de Mato Grosso
Contaminação dos rios deve ser analisada pela Sema apenas no próximo ano
No Dia Mundial da Água, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992, ou seja, há 25 anos, alertando para importância da água à sobrevivência humana e o risco de escassez, mestre em recursos hídricos, Sérgio Batista de Figueiredo, coordenador de monitoramento da qualidade ambiental do laboratório da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), levanta preocupação com a situação dos rios locais, um Estado que ele considera "abençoado" em mananciais, mas que ainda joga esgoto in natura neles na maior parte das grandes cidades do Estado, como Cuiabá, Rondonópolis, Tangará da Serra e Cáceres.
"Quando não joga direto nos rios, afeta córregos, de menor porte, que chegam até os rios, como em Sinop e Sorriso, em que do rio da Lira, que é menor, leva impurezas que chegam ao rio Teles Pires e Verde, de maior porte", destaca.
Das três bacias hidrógraficas que cortam Mato Grosso, a que está em pior condições é a Bacia do Paraguai, justamente porque banha cidades grandes, para realidade local.
Faz parte dela, o rio Cuiabá, que se tornou impróprio para banho, mas garante o abastecimento nas residências, indústrias e comércios. Na capital, conforme Sérgio, mais de 70% do esgoto chega ao leito sem tratamento. Em Várzea Grande, 97%. Em Rondonópolis, o rio Vermelho, que também abastece a cidade, é "bombardeado" na rotina pelo esgoto.
Esses rios, que já foram "praias mato-grossenses", hoje não são indicados para banho, tais como o Cuiabá, Vermelho e o córrego Piraputanga, em Cáceres.
Segundo Sérgio, as outras duas bacias de Mato Grosso - Amazônica e Araguaia-Tocantins - estão em melhores condições com relação a esgoto, mas sofrem a intervenção de usinas hidrelétricas e também contaminação por pesticidas.
"Ainda não fazemos esse controle de pesticidas, mas as academias têm indicadores de que são prejudiciais", ressalta Sérgio Figueiredo, se referindo, por exemplo, a estudos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Segundo ele, a Sema está adquirindo equipamentos e a partir de 2018 vai analisar contaminação dos rios locais por venenos agrícolas.
Justamente por esta preocupação, entre outras, rio Juruena, na Bacia Amazônia, motivou campanha, abraçada por movimentos sociais, no sentido de protegê-lo.
Em relato à Operação Amazônia Nativa (Opan), indígena André Celino Nambikwara lamenta a afetação do manancial. "Com 17, 18 anos eu vi o rio Juruena bonito. Hoje você vê só água. Não tem mais nada. E onde nós vamos achar peixe? O peixe está contaminado. A ema anda onde passam veneno. A gente mata e come. Achamos veneno de formiga na beira do rio. Soja cresce na barriga do pacu. Estoura o bucho dele e ele morre. Por isso o peixe está acabando”, lamenta o Namnikwara.
A Opan considera a questão dos agrotóxicos um grave problema.
Ambientalistas denunciam também a mudança das dinâmicas dos rios pelas usinas hidrelétricas.
Para Sema, apesar dos riscos do entorno, o Juruena é um dos rios mais limpos e lindos de Mato Grosso assim como outros de grande beleza cênica, como Araguaia e o Papagaio.