Cursi cita "omissão" e aponta participação de deputados e prefeita
Ex-secretário de Estado de Fazenda é réu de ação derivada da 4ª fase da Operação Sodoma
O ex-secretário de Estado de Fazenda, Marcel de Cursi, foi interrogado na tarde desta quinta-feira (27) sobre o esquema investigado na ação penal derivada da 4ª fase da Operação Sodoma.
A audiência foi conduzida pela juíza Selma Arruda, da Vara Contra o Crime Organizado da Capital.
Cursi é acusado de participação no suposto esquema que teria desviado cerca de R$ 15,8 milhões do Estado, em 2014, por meio do pagamento da desapropriação de uma área no Bairro Jardim Liberdade, no valor de R$ 31,7 milhões, à empresa Santorini Empreendimentos Imobiliários. O valor desviado teria sido destinado à organização criminosa comandada pelo ex-governador Silval Barbosa (PMDB).
O ex-titular da Sefaz estava preso desde setembro de 2015, quando foi deflagrada a 1ª fase da operação. Contudo, ele obteve a soltura no dia 11 de julho.
Na oitiva, ele negou ter se beneficiado do esquema e ainda citou a participação dos deputados Wagner Ramos, Romoaldo Júnior, Mauro Savi e Guilherme Maluf, além da ex-deputada e atual prefeita de Juara, Luciane Bezerra, nas tratativas ilícitas.
Cursi ainda acusou os delatores do esquema - os ex-secretários Pedro Nadaf, Pedro Elias, César Zílio e Afonso Dalberto - de terem combinados suas versões quando estavam presos no Centro de Custódia da Capital. Para Cursi, os réus omitiram informações em relação aos beneficiados que possuem foro privilegiado.
Confira como foi a audiência:
"Não tenho participação" (atualizada)
Marcel de Cursi afirmou que a denúncia é falsa e que ele não tem participação nos fatos investigados.
"Não interferi em momento algum nesse processo do Jardim Liberdade. Nem conheço esse processo, nunca tratei dele com ninguém. Não recebi nenhuma propina".
O ex-secretário disse que o ex-secretário da Casa Civil, Pedro Nadaf, admitiu que o valor que, segundo a denúncia, seria para ele, foi destinado à atual prefeita de Juara, Luciane Bezerra (PSB).
"Eu acho que tem um grave engano nessa denúncia do MPE. O Pedro Nadaf inclusive se retratou e disse que não me passou propina nenhuma para mim. Que esses valores que o MPE diz que recebi, segundo o Pedro Nadaf, foi usado para a [ex] deputada Luciane Bezerra em função de dívidas do governador Silval".
"Eu não estive reunido com o Silval para liberar o recurso porque haveria um retorno. Isso não aconteceu. Não era a Secretaria de Fazenda que tinha que liberar esse recurso. Nunca conversei nada que não fosse republicano com nenhuma dessas pessoas envolvidas".
Omissão de informações (atualizada)
Cursi relatou que a Sefaz solicitou informações ao então presidente do Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat), Afonso Dalberto, sobre o processo de pagamento da desapropriação.
Ele reclama que Afonso retardou o envio das informações e quando enviou, em dezembro de 2014, não havia mais tempo hábil para analisar.
"Isso gerou um constrangimento, imagino eu, nas pessoas que estão envolvidas nesses fatos. Estou sendo prejudicado por causa disso".
O ex-secretário disse que os demais réus da ação têm ocultado a participação de pessoas com foro especial por prerrogativa de função nos fatos investigados.
"Os réus vêm aqui e omitem pessoas com foro privilegiado, como a ex-deputada Luciane Bezerra. Aí é muito fácil pegar um servidor de carreira, que dizia não para todo mundo, e botar ele aí".
Deputados beneficiados (atualizada)
Cursi também citou outros quatro deputados que, segundo ele, teriam se beneficiado do esquema.
"Wagner Ramos, Romoaldo Júnior, Mauro Savi e Guilherme Maluf. Esses nomes não aparecem".
"Eu não consigo entender porque entrei nisso, mas consigo perceber que muita gente com foro ficou de fora. Não estou dizendo que essa protelação é culpa do Ministério Público, mas os réus são delatores, eles estão fazendo a defesa deles. Não estou desmerecendo o trabalho da promotora Ana [Bardusco], não estou desmerecendo o trabalho de ninguém".
Para Cursi, os números dos desvios e da divisão da propina "não fecham" na denúncia.
"Dos R$ 15 milhões, Supostamente R$ 10 milhões foram para Silval, R$ 4,4 milhões para os membros da organização, da qual eu não participo, mais 4,5 milhões de custos diversos, como o pagamento de um jornalista, além dos R$ 4,4 milhões que os réus dizem que ficaram para eles. Então está faltando mais de R$ 2 milhões".
O ex-secretário corroborou a versão do procurador Chico Lima e também negou que tenha tido qualquer reunião com o delator e dono do terreno, Antonio Carvalho.
"Eu não conheço o Antonio, nunca tive reunião com essa pessoa. Para chegar no secretário de Fazenda você precisa de uma agenda. Da forma que ele [Antonio] falou, parece que ele chegou e foi entrando".
Versões combinadas (atualizada)
A juíza Selma Arruda perguntou se era verdadeira a afirmação do ex-presidente da Metamat, João Justino (que é delator), de que Cursi teria pedido para trocar sua propina por ouro.
"Eu não comprei ouro. Se eu não recebi a propina, se a propina foi entregue para a Luciane, como que eu compraria?".
Cursi classificou como "curioso" o fato de as acusações contra ele terem partido de Nadaf, João Justino e Antonio Carvalho.
"As três pessoas que me acusam, Pedro Nadaf, o João Justino e o Antonio Carvalho tem relação econômica entre si. O Antonio Carvalho deu como garantia no acordo de delação uma imobiliária que está em nome do advogado dele, que é o mesmo do Nadaf".
Segundo o ex-secretário, os quatro delatores da Sodoma combinaram suas versões quando estavam presos no Centro de Custódia da Capital.
"O Nadaf, Pedro Elias, César Zílio e Afonso Dalberto dividiram cela e tiveram todas as condições para você construir um arranjo ali. Acordo de versões tem. Estão fazendo o exercício de direito deles? Sim, mas tem acordo de versões".
"Não preciso roubar" (atualizada)
Ao final do interrogatório, Cursi citou que o sócio da JBS, Joesley Batista, que detalhou as propinas empresa na gestão de Silval, negou que ele tenha tido qualquer participação. Cursi também é réu em uma ação de improbidade sob a acusação de ter concedido incentivos fiscais ilegais ao frigorífico.
"Aí veio a doutora Ana e me arrebentou. Tomou tudo o que eu tinha em 31 anos da minha vida. E eu estou aqui agora. Um homem que comprou metade do país [Joesley] demorou cinco anos para dizer que eu era inocente. E vejo meu nome em todo lugar como corrupto".
"Eu não preciso roubar, não preciso passar por isso, ainda mais por causa de R$ 700 mil. A doutora Ana tomou meu patrimônio de 31 anos de trabalho".
O depoimento foi encerrado.