Com bois para venda, pecuaristas têm prejuízos com a suspensão de abate
Bois prontos para o abate continuam em propriedades e custo encarece
Em Mato Grosso, os pecuaristas já sentem os reflexos da suspensão do abate nos 10 frigoríficos da JBS, mas que, em alguns locais, começou desde o início da semana, de acordo com os produtores.
Márcio Braga, criador de gado em Pontes e Lacerda, a 483 km de Cuiabá, por exemplo, havia programado a venda de um lote de 400 bois, prontos para o abate, para esta semana, quando foi informado pela empresa que as compras estavam suspensas.
Em nota, a JBS informou que, além dos abates por três dias, com início nesta quinta-feira, a redução das atividades continuará na semana vem. A empresa vai operar com 35% da sua capacidade produtiva. "Essas medidas visam ajustar a produção até que se tenha uma definição referente aos embargos impostos pelos países importadores da carne brasileira", disse.
Sem um "plano B", já que toda a produção é vendida para o frigorífico da JBS que fica no município, Márcio Braga disse que ainda não sabe o que fazer. "Estou perdido e não pensei numa alternativa. Meu pai trabalha com bois para abate há 20 anos e nunca passamos por uma situação como essa", declarou o pecuarista.
Ele cria 3 mil cabeças de gado no sistema de semiconfinamento, quando o animal se alimenta de ração e também de pasto, e a cada 20 dias entrega essa média de 400 bois ao frigorífico. Com esse atraso na venda desse lote, Braga já fica apreensivo com a próxima entrega, dos animais que devem ficar prontos para o abate em aproximadamente 15 dias.
"Na sexta-feira passada (17), eu entrei em contato com a JBS para vender esses animais e me disseram que a compra estava suspensa. Então, há uma semana são 500 bois comendo sendo que poderiam já ter sido entregues", afirmou o produtor. Ele explicou que o custo diário de cada boi é de R$ 5 e esse gasto não retorna.
Segundo ele, quando que o animal chega a determinado peso não engorda mais e depois é vendido por arroba, ou seja, o frigorífico vai pagar o mesmo valor que seria pago no período em que o boi estava pronto para o abate.
O também pecuarista Tulio Roncalli, que mora na mesma região, já teme os impactos da suspensão do abate após os embargos à carne brasileira depois da Operação Carne Fraca. "O pecuarista está sendo prejudicado porque tem a cultura de pagar as contas em dia, então depende dessa venda, diferente de outros setores. E com o boi no pasto o custo aumenta", afirmou.
Os frigoríficos, como explica Roncalli, possuem uma escala para abate. "Eles compram e marcam o dia do embarque. Daí abate no outro dia. Já tem uma escala pronta. Vai chegar o momento em que tem que comprar. Eles [do frigorífico] não informam quanto tempo têm de escala", disse.