Cabo chama Lesco de 'irmão' e diz que ambos vão 'virar o jogo'
Texto foi encontrado durante busca e apreensão na casa da esposa de Lesco, a personal Helen Christy
O cabo Gerson Corrêa Júnior enviou uma carta ao ex-secretário da Casa Militar, coronel Evandro Lesco, enquanto os dois já estavam presos. No texto, Corrêa chama Lesco de “irmão” e chega a afirmar que os dois ainda vão "dar muitas risadas e tomar muito chope".
Os militares são suspeitos de participação no esquema criminoso de interceptações telefônicas ilegais em Mato Grosso. O cabo está preso preventivamente desde 23 de maio. Lesco foi detido em 23 de junho. A medida foi convertida em domiciliar em 18 de agosto.
O coronel retornou à prisão em 27 de setembro, na Operação Esdras, que apurou esquema montado para gerar a suspeição do desembargador Orlando Perri.
Em 2 de agosto, enquanto estava preso no Centro de Custódia da Capital (CCC), o cabo enviou a carta – escrita a mão – ao coronel Evandro Lesco. A Justiça havia determinado que os acusados de participação no esquema de grampos não poderiam manter contato.
No texto, Corrêa chama Lesco de “irmão”, comenta sobre a pressão da mídia em relação ao esquema de grampos ilegais e se mostra tranquilo sobre o caso.
"Irmão, quanto à pressão da mídia, notadamente, TVCA (Globo-MT), todos os dias batem. Porém, estamos cientes de que nada será além disso, ‘pressões midiáticas’. Vamos bancar com muita serenidade, sem apavorar”, escreveu.
“Os fatos que ora a TVCA noticia, com supedâneo da decisão do Perri, não prosperam e iremos reverter isso. Acredito que a revogação da sua PP [prisão preventiva] irá ocorrer e depois iremos trabalhar para que ocorra dos demais irmãos”, acrescentou.
A carta foi encontrada na casa da personal trainer Helen Christy Carvalho Lesco, esposa do ex-secretário da Casa Militar, durante busca e apreensão da Operação Esdras, deflagrada pela Polícia Civil.
O texto é mencionado pelo desembargador Orlando Perri como um dos argumentos para determinar uma nova prisão do cabo Gerson Corrêa. A decisão foi proferida na tarde de quarta-feira (11).
Ainda na carta o cabo frisou que se manterá fiel ao ex-secretário da Casa Militar “custe o que custar”.
“A minha [revogação da prisão preventiva] bancarei o tempo que for sem esmorecer um segundo sequer. [...] continuemos sempre alinhados, não abro mão da nossa irmandade, fidelidade e lealdade, custe o que custar”.
Chope e tranquilidade
Na carta, o cabo chegou a afirmar que acredita que posteriormente ele e o coronel ainda irão se encontrar para se divertir. "Estou muito tranquilo, muito seguro de que vamos virar esse jogo. E vamos dar muitas risadas e tomar muito chope. Eu creio", pontuou.
Ao finalizar o texto, Corrêa afirmou que, mesmo preso no CCC, está a cada dia melhor. "Irmão, fico por aqui, na certeza de saber que está bem e já lhe informando que estou melhor ainda. Certeza. A cada dia que passa fico mais firme. 'Tô' mais forte e mais convicto. Um grande abraço. Fique com Deus e muita força por aí. Amo você, meu irmão. Estou bem”, concluiu.
Para o desembargador, a carta é uma das provas de que, mesmo preso, Corrêa interferiu de modo concreto nas investigações referentes aos grampos ilegais.
“Razão pela qual se patenteia imprescindível a manutenção de sua prisão, e, pelo visto, a tendência é que procurará fazer de tudo para prejudicar, ainda mais, as investigações policiais, conforme se viu em trechos da carta encaminhada ao seu ‘irmão’ Cel. PM Lesco”, pontuou.
Com base no texto encaminhado por Corrêa a Lesco, Perri ressaltou que o cabo não mediria esforços para prejudicar as apurações.
“Pelo que se extrai desta passagem, conclui-se, indene de dúvidas, de que o Cb. PM Gerson Correa está disposto a fazer o que for necessário para atrapalhar as investigações, e trabalhar em prol do grupo, por conta da irmandade, fidelidade e lealdade que há entre seus integrantes, chegando ao ponto de dizer que sempre continuarão alinhados, ‘custe o que custar’”, disse.
Interferência nas investigações
A decisão que decretou a segunda prisão de Corrêa foi motivada pelas suspeitas de que o cabo teria sido responsável por ocultar o equipamento que fazia a "arapongagem".
De acordo com Perri, o empresário José Marilson da Silva, ex-sócio proprietário da empresa Simples IP, que foi preso na Operação Esdras, e posteriormente solto, era responsável pelo desenvolvimento do software do Sistema Sentinela, que realizava as interceptações clandestinas.
Marilson teria confirmado que Corrêa era o responsável por ocultar o equipamento.
Com base em tais argumentações, Perri mencionou que há indícios suficientes sobre a prática ilegal cometida por Correa e decretou a nova prisão do cabo.
“Forte em tais razões, entendo presentes a prova da materialidade e os indícios suficientes de autoria pela prática dos crimes de organização criminosa, e de embaraço à investigação de infração penal que envolva organização criminosa, em relação ao representado Gerson Luiz Ferreira Corrêa Júnior, razão pela qual, a meu sentir, a prisão se patenteia imprescindível para garantia da ordem pública e por conveniência da instrução criminal”, assinalou.