Assentados de área rural fizeram quase 400 denúncias contra fazendeiros por ameaças
Famílias dizem que foram abandonadas em assentamento destinado à reforma agrária
Assentadas regularmente pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), 12 famílias que vivem em um assentamento rural em Nova Guarita, a 667 km de Cuiabá, denunciam as constantes ameaças, perseguições e ataques sofridos por fazendeiros da região.
Duas representantes dos assentados relataram que foram registrados 396 documentos, entre denúncias e boletins de ocorrências contra os crimes, nos últimos 10 anos.
Segundo a Comissão Pastoral da Terra, Mato Grosso registrou 272 casos de pistolagem relacionados à violência contra a ocupação e a posse de terras em municípios do estado em 2016. Nesse mesmo ano, 775 famílias foram despejadas e outras 175 expulsas de áreas rurais, de acordo com a instituição.
Nessa área da União, denominada Gleba Gama, moram 30 pessoas que foram beneficiadas com programa de reforma agrária. O assentamento de 409 hectares faz divisa com fazendas em Nova Guarita.
A última ameaça sofrida pelas famílias, segundo as representantes, ocorreu nesta segunda-feira (24). Peões da propriedade vizinha ameaçaram uma criança de 10 anos e a impediram de transitar pela região. Na semana passada, outro morador havia sido agredido por essas mesmas pessoas. Eles usaram cordas para agredir a vítima em uma emboscada.
As famílias ocupam a terra, alvo de disputa, há mais de 10 anos. Para se sustentar, elas produzem verduras e legumes na terra e vendem para moradores da cidade. “Nós estávamos em um acampamento e o Incra nos colocou nesse local, temos documentos que comprovam e temos autorização para ocuparmos os hectares. Mas, infelizmente, não é isso que acontece”, disse uma assentada que não quis se identificar.
As famílias dizem que já tiveram casas incendiadas, barracos alvejados por tiros, plantações destruídas e tentativas de assassinato. “Essa criança de 10 anos estava andando e foi abordada por três peões da fazenda. Fizeram ele voltar, impedindo ele de andar pela região. Na semana passada um de nós foi agredido com uma corda”, declarou outra trabalhadora.
O caso mais grave ocorreu em 2013. As famílias afirmam que uma aeronave pulverizou agrotóxico sobre elas. Um fazendeiro foi preso naquela época e solto no mesmo dia após pagar fiança.