Alan diz que Malouf e Leitão recebiam propina de empreiteiros
Empresário diz que aceitou esquema para recuperar valores investidos na campanha de Taques
O empresário Alan Malouf, sócio do Buffet Leila Malouf, voltou a confessar ter se beneficiado do esquema investigado na Operação Rêmora, que teria ocorrido em 2015 e consistente na exigência de propina a empresários para a concessão de contratos e pagamentos de medições de obras que a Seduc devia aos mesmos.
Em interrogatório da ação penal na qual ele é réu, na tarde desta quinta-feira (08), Alan disse que se beneficiou de R$ 260 mil em propina. A audiência foi conduzida pela juíza Selma Arruda, da Vara Contra o Crime Organizado da Capital.
Leia também:
Taques rebate Malouf e diz que acusações são mentirosas
Ele reafirmou o depoimento prestado ao Grupo de Atuação Contra o Crime Organizado (Gaeco) e disse que o ex-secretário de Educação Permínio Pinto, o deputado federal Nilson Leitão e o deputado estadual Guilherme Maluf, todos do PSDB, também se beneficiaram do esquema.
"Denúncia é verdadeira"
A audiência teve início por volta de 13h15. Alan Malouf começou o depoimento afirmando que a denúncia derivada da operação Rêmora contra ele é verdadeira e que ele entrou na esquema a convite do empresário Giovanni Guizardi - atual delator do esquema.
“Ratifico tudo que disse no Gaeco. Nunca na minha vida participei de ato político e desse tipo de ato. Eu nunca participei de reuniões com empresários. Eu me beneficiei com o valor de R$ 260 mil. Entre março e abril de 2015, o Giovanni [Guizardi] me solicitou que apresentasse ao Perminio [Pinto]. Ele queria pegar obras na Seduc”, disse.
“Num segundo momento o Giovanni me disse que tinha o esquema pra pagar as contas da campanha. Eu fiquei reticente. Mas ele insistiu. Na segunda ou terceira vez eu aceitei para pagar as contas da campanha”, afirmou
Malouf disse que Guizardi o convenceu a participar do esquema, no intuito de obter o "retorno" das doações feitas na campanha do governador Pedro Taques (PSDB), em 2014.
“Nem o conhecia o Perminio. Eu passei a conhecer depois que ele foi secretário. Eu era um dos coordenadores da campanha. O Giovani tinha doado R$ 200 mil. Passei a conhecer o Perminio na transição. Quando Pedro Taques e [Nilson] Leitão escolheram ele como secretário. Giovanni insistiu que eu tinha doado e queria me ajudar a recuperar. Não só eu, mas o Guilherme e o Leitão", afirmou.
“Primeiro eu não quis. Eu doei R$ 2 milhões e pouco. Ele me convenceu a aceitar. Eu não recordo a data, mas foi durante 2015 que recebi. Duas vezes”.
Empresário cita ex-secretário e deputados
Segundo Alan Malouf, a propina que recebeu foi paga em dinheiro por Giovanni. “Os pagamentos eram sempre feitos em dinheiro. Foram duas vezes na minha empresa e uma na minha casa”, disse.
O empresário alegou que não sabia como funcionava o esquema. “Eu nunca estive ou participei de reuniões com empresários. Eles me citavam nomes das empresas. Mas eu não sei como funcionava. Não sei como era a arrecadação. Eu soube só pelo processo que era 3% do faturamento da empresa. Mas o Giovanni nunca me passou qualquer dado de planilha, nem nada”, disse.
Alan Malouf afirmou que chegou a passar parte da propina do esquema diretamente para o ex-secretário Permínio Pinto e o deputado estadual Guilherme Maluf, a pedido de Giovanni Guizardi.
“Eu sei que ele [Giovanni] passava direto pra mim. Para o Perminio e para o Guilherme [Maluf]. Uma vez ele me pediu pra passar para o Perminio, mas tava num envelope fechado. E para o Guilherme também uma vez. Esse eu sei que foi R$ 40 mil. Está no meu depoimento", afirmou.
O empresário disse ainda que também tinha conhecimento que o deputado federal Nilson Leitão (PSDB) estava recebendo parte do dinheiro de propina.
“Eu não participei dessa questão de rateio de percentuais [da propina]. O que eu sei é o que recebi. Eu sabia que outros estavam recebendo. O Perminio e o Leitão e o Guilherme. Mas eu quero reafirmar que eu nunca tive contato com o Leitão. Era o Giovanni que me falava. Eu fiz a apresentação entre Perminio e Giovanni. Depois eles que tratavam. Mas o Perminio sabia que eu estava recebendo", afirmou.
Caixa 2
Alan Malouf declarou que a doação que fez para a campanha do governador, no valor de mais de R$ 2 milhões, foi por meio de caixa 2 (dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral), e segundo ele, Pedro Taques tinha conhecimento disso.
“O empréstimo não foi declarado. Não foi porque foi caixa 2. E o governador tem ciência disso. E a doação do Giovanni também”, disse.
“Existiu no final da campanha um valor a ser pago. Houve um rateio e eu participei desse pagamento. Era como se fosse um empréstimo pra pagar a dívida. Obviamente com o conhecimento do governador. O pedido partiu do próprio governador”, afirmou.
Taques disse para ficar “tranquilo”
O empresário afirmou que após a prisão de Giovanni Guizardi, em maio de 2016, ligou para o governador, que marcou uma reunião com ele no Palácio Paiaguás.
Segundo Alan Malouf, na reunião Taques disse para ele ficar tranquilo, pois iria conseguir a soltura de Guizardi.
“Quando foi deflagrada a operação e o Giovanni foi preso, eu passei uma mensagem para o governador e pedi pra falar com ele. Ele estava em Brasília e me disse pra passar no Palácio à noite. Cheguei lá e estava ele e o Paulo Taques [ex-secretário da Casa Civil]", disse.
“Eu falei que o Giovanni tinha feito a doação da campanha e estava fazendo isso pra pagar. Ele me disse que era pra eu ficar tranquilo que ia dar um jeito de resolver e soltá-lo. Mas isso não aconteceu, e veio e a prisão do Perminio. Eu alertei de novo. Ele falou que era pra ficar tranquilo que ia soltá-los. Mas não aconteceu e veio minha prisão”, pontuou.
Truculência e embriaguez
Durante o depoimento, Alan Maluf disse que o ex-servidor da Seduc, Fábio Frigeri, e o então secretário Perminio Pinto o procuraram para dizer que Giovanni Guizardi estava sendo muito truculento com os empresários.
"Fizemos uma reunião na minha empresa. Mas eu deixei os três conversando porque eu não entendia das partes do contrato. Eles sairam de lá e se entenderam", disse.
Ainda no depoimento, o empresário reafirmou que não participava das reuniões para divisão dos contratos e que a única vez que esteve na sala alugada na Avenida Miguel Sutil, no bairro Santa Rosa, em Cuiabá, local que teria sido usado para reuniões, encontrou Guizardi bêbado.
"Encontrei apenas uma vez o o Giovanni na sala que era alugada para as reuniões. Inclusive estava embriagado", disse.
Outro lado
Em nota, o deputado federal Nilson Leitão negou ter se beneficiado do esquema. "As declarações do depoente [Alan Malouf] são vazias, baseadas em conversas que ouviu de terceiros, sem qualquer relação com a verdade. Reafirma também estar sempre à disposição para prestar esclarecimentos que se façam necessárias", diz a nota.
Operação Rêmora
A denúncia derivada da 1ª fase da Operação Rêmora aponta crimes de constituição de organização criminosa, formação de cartel, corrupção passiva e fraude a licitação.
Na 1ª fase, foram presos o empresário Giovani Guizardi; os ex-servidores públicos Fábio Frigeri e Wander Luiz; e o servidor afastado Moisés Dias da Silva. Apenas Frigeri continua preso.