Júlio Campos aparece ao lado de piloto após pouso forçado de avião em MT
Nininho diz que cheque em sua conta era empréstimo de factoring
Deputado estadual afirma que financeira lhe repassou um cheque emitido por terceiros
O deputado estadual Ondanir Bortolini (PSD), o “Nininho”, afirmou ser vítima do esquema de fraude, desvio e lavagem de dinheiro no âmbito do Detran Mato Grosso, descoberto na Operação Bereré.
De acordo com o político, o cheque que recebeu em 2014, do então sócio da Santos Treinamento, Claudemir Pereira, era fruto de um empréstimo feito em uma factoring.
A Santos Treinamento é uma das empresas investigadas na operação. "Se trata de um fato que ocorreu, e envolveu mais de 200 pessoas vítimas da circulação desses recursos. E eu, como muitos outros, fui vítima por ter passado R$ 1 mil pela minha conta. E agora eu vou esclarecer”, disse o político no início da tarde desta segunda-feira (2).
A declaração foi dada antes de ele prestar depoimento no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) referente à operação nesta tarde.
A versão de Nininho coincide com a de seu ex-assessor, Tschales Tschá, de que os cheques eram de terceiros e foram usados para pagar despesas do político.
A Operação Bereré, deflagrada em fevereiro, apura um esquema de fraude, desvio e lavagem de dinheiro no âmbito do Detran MT, na ordem de R$ 27,7 milhões, que operou de 2009 a 2015.
“Isso foi um empréstimo pego pelo meu chefe de gabinete em uma factoring, que ao invés de passar o recurso [dinheiro], passaram cheques de terceiros, que infelizmente faziam parte desse esquema”, disse Nininho.
Segundo as investigações, parte dos valores repassados por bancos que financiavam carros à EIG Mercados, por conta do contrato com o Detran-MT, retornava como propina a políticos, dinheiro esse que era “lavado” pela Santos Treinamento e por servidores da Assembleia, parentes e amigos dos investigados.
Nininho não foi alvo da Bereré, mas as investigações apontaram que ele recebeu um cheque de R$ 1 mil, no dia 20 de fevereiro de 2014, emitido por Claudemir Pereira - na época ainda sócio da Santos Treinamento.
O político alega que é comum a prática de pegar dinheiro emprestado de factoring, sem a exigência de comprovação.
“Quando precisa você recorre ao empréstimo, como a maioria dos comerciantes. E empresários fazem. Foi isso que ocorreu comigo. Meu chefe de gabinete pegou, me parece R$ 6mil e R$ 1 mil. Ele transferiu da conta dele para minha, só isso [...]”, alegou.
Segundo Nininho, o dinheiro serviria para “cobrir” sua conta, que na época estaria negativa.
Assessor de gabinete
O ex-assessor de gabinete de parlamentar, Tschales Tschá, depôs ao Gaeco no dia 7 de março.
Ele trabalhou na assessoria de Nininho até janeiro de 2015 e, desta data até janeiro de 2017, passou a atuar como secretário-geral da Assembleia Legislativa.
Na oitiva, Tschales Tschá afirmou que era comum ele receber cheques e valores em espécie de terceiros das factorings que operavam com o deputado, “mas poucas vezes referidos cheques transitaram na minha conta pessoal”.
O ex-assessor disse que nunca teve negócios com Claudemir Pereira e que o valor de R$ 1,5 mil compensando de um dos cheques e depositado em sua conta “provavelmente foi o ressarcimento de alguma despesa paga pelo mesmo e relacionada a alguma despesa pessoal de algum familiar do deputado Nininho ou do gabinete dele”.
A operação
A operação Bereré foi desencadeada em fevereiro com o cumprimento de mandados de busca e apreensão na Assembleia Legislativa, em imóveis e escritórios, além da sede da empresa em Brasília.
São alvos da operação o presidente da Assembleia Legislativa, Eduardo Botelho (PSB), o deputado estadual Mauro Savi (PSB), o ex-deputado federal Pedro Henry, servidores públicos, empresas e particulares.
A operação é desdobramento da delação premiada do ex-presidente do Detran, Teodoro Moreira Lopes, o "Dóia". Ele revelou esquemas de corrupção na autarquia, iniciados em 2009, e que renderia, ao menos, R$ 1 milhão por mês.
A EIG Mercados venceu uma licitação, em 2009, para prestar serviços de registro de financiamentos de contratos de veículos, por um período de vinte anos.
Até julho de 2015, a empresa ficava com 90% da arrecadação anual - estimada em R$ 25 milhões - e o órgão com 10%. Em julho de 2015, já na gestão Pedro Taques (PSDB), o Detran fez um termo aditivo ao contrato, passando a receber 50% da arrecadação.
Conforme as investigações, parte dos valores recebidos pela EIG Mercados era repassada para a Santos Treinamento, que seria de fachada e atuaria apenas para “lavar” e distribuir a propina aos políticos.
Dezenas de servidores e parentes de servidores do Poder Legislativo também teriam sido usados para lavar o dinheiro arrecadado por meio do esquema criminoso.