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Idosos 'escravizados' voltam para casa em Mato Grosso
Eles foram resgatados em uma fazenda no município de São José do Rio Claro
Já estão de volta a Várzea Grande os dois irmãos idosos que foram resgatados em uma fazenda chamada “Meus Netos”, no município de São José do Rio Claro, no interior de Mato Grosso, após trabalharem por dois anos no local, levando vida de escravos.
Os dois foram contratados informalmente para cortar madeira e fazer cerca na fazenda. Enquanto trabalharam, até maio deste ano, bebiam água de rio, caçavam para complementar a alimentação e moravam em barracos de lona preta.
Os dois são brancos, de compleição física pequena, naturais de Ponta Porã (MS), mas moram em Várzea Grande. Um deles, Ramão Schimitt, de 60 anos, contou que não tinha outra opção de água, na fazenda, a não ser o rio Verde. “Quando chovia, o rio ficava barrento e a gente tinha que tomar essa água assim mesmo”, detalhou o braçal. No rio, ele e o irmão, Edilçon Schimitt, 59, também lavavam a roupa e a louça.
Com uma garrucha velha, caçavam animais do local, para comer, já que a proprietária da fazenda, Maria de Lourdes, não fornecia comida suficiente, conforme apuraram fiscais do trabalho. Na marmita deles vinha arroz, feijão, macarrão e farinha e eventualmente carne. Era a comida de todo o dia.
Quando chovia, os dois não conseguiam dormir, porque molhava tudo dentro do barraco.
A fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) verificou que a jornada exaustiva dos irmãos também confirma que levavam vida análoga a de escravos.
Apesar da compleição física pequena, “eles carregavam um rolo de arame, não sei de quantos quilos nas costas por até sete quilômetros e eu vi as cicatrizes nas costas de um deles (Ramão)”, diz, indignada, a advogada da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Bete Flores, que participou do resgate dos irmãos.
A situação deles se agravou porque, após denúncia anônima, os dois acabaram sendo presos pela Polícia Civil de São José, no lugar da dona da fazenda, por crime ambiental e porte ilegal de arma, por conta da garrucha que usavam para caçar.
Mesmo sem provas concretas de que eram os responsáveis pelo crime ambiental, os irmãos ficaram presos por uma semana e, mesmo após serem soltos, o advogado da fazendeira os fez pensar que não poderiam ir embora ainda, por terem supostas pendências com a polícia, o que, segundo a advogada Bete Flores, era mentira.
“É muita humilhação”, comenta Ramão, certificando que o irmão dele, Edilçon, está traumatizado. Ambos são filhos de produtores rurais e a vida toda trabalharam na roça, tendo como valor a honestidade. “Sinto vergonha de ter sido preso, estou humilhado”, lamenta.
Para Bete, o caso denota o despreparo policial em atender situações de escravidão contemporânea, que, segundo ela, embora pareçam improváveis, ainda ocorrem em locais distantes de Mato Grosso.
Por meio de nota, a Polícia Civil informou que os dois irmãos não foram indiciados e que abriu um segundo inquérito para apurar as condições análogas de escravo em que viviam.